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O Espiritismo não é uma doutrina alienada da realidade social, mas tampouco se confunde com sistemas ideológicos ou projetos partidários. Seu compromisso central é a transformação moral do indivíduo, condição indispensável ao progresso coletivo(¹). Deve o espírita repudiar projetos de dominação ideológica de matriz “ditatorial vermelha”? Sim, como espírita consciente, desde que o faça com lucidez, sem fanatismo e com firmeza moral, sem ódio.
É bem verdade que Allan Kardec foi explícito ao afirmar que o Espiritismo não se ocupa da política prática nem se associa a projetos de poder:
“O Espiritismo não vem absolutamente ocupar-se das questões políticas; deixa às instituições humanas o cuidado de se organizarem conforme lhes parecer melhor.”(²)
Essa neutralidade doutrinária, contudo, não equivale à indiferença moral. A Doutrina Espírita avalia as consequências das ações humanas, através dos rótulos ideológicos que as revestem(³).
Projetos políticos que, ainda que em nome da justiça social, resultam em perseguição a opositores, censura da imprensa, criminalização da divergência e concentração prolongada de poder entram em conflito direto com a ética espírita, pois violam o livre-arbítrio, a responsabilidade individual e a dignidade humana(⁴).
Kardec é categórico ao afirmar:
“A liberdade de consciência é uma consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem.”(⁵)
Do mesmo modo, assistencialismo sem emancipação e promoção social não é caridade. O Espiritismo distingue a caridade moralmente edificante do assistencialismo que perpetua a dependência:
“A verdadeira caridade passa pela [benevolência, pela indulgência e pelo perdão] e busca no fundo do coração a causa dos males, para [ressignificá-los].”(⁶) (grifos meus)
Assim, políticas que mantêm populações em dependência crônica do Estado, desestimulam o esforço pessoal ou instrumentalizam a pobreza não se harmonizam com o ideal espírita de progresso moral e material do Espírito(⁷).
Kardec ainda adverte: “Os Espíritos inferiores procuram dominar; os bons jamais impõem, aconselham.”(⁸) Portanto, quando projetos políticos revelam vocação autoritária, isso reflete o grau moral dos Espíritos que os sustentam, encarnados e desencarnados, bem como das coletividades [militantes] que os toleram(⁹). grifo meu
O dever do espírita não é idolatrar ideologias nem justificar abusos mas analisar com lucidez, denunciar injustiças e preservar a verdade sem ódio, lembrando que: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.”(¹⁰) O Espiritismo não condena nem absolve instituições políticas específicas, mas condena toda prática que viole a justiça, a liberdade e a dignidade humana, venha de onde vier.
A Doutrina Espírita não é de esquerda nem de direita — é da consciência. Não serve a projetos de poder — serve ao progresso moral da Humanidade. Toda estrutura que se afaste desse ideal responderá, cedo ou tarde, à Lei de Causa e Efeito, soberana sobre homens, partidos e governos(¹¹).