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Não existe uma “igreja espírita” porque o Espiritismo, desde sua origem, não foi concebido como uma religião institucional, mas como uma doutrina de caráter filosófica, científica e moral, voltada ao estudo racional da realidade espiritual e à transformação ética do indivíduo. Essa distinção é fundamental para compreender por que o Espiritismo não adotou uma estrutura eclesiástica, com sacerdócio, dogmas imutáveis ou autoridade espiritual central.
Allan Kardec, ao afirmar que o Espiritismo não se apresenta como uma nova fé organizada nos moldes tradicionais, exorta em O Livro dos Espíritos e em O Evangelho Segundo o Espiritismo, que a ênfase do pensamento espírita recai sobre a moral do Cristo como referência universal, sem a necessidade de uma igreja como intermediária entre o ser humano e essa referência. Para Kardec, a relação com o divino não depende de ritos nem de hierarquias religiosas, mas do aperfeiçoamento interior, da prática do bem cotidiano e do uso consciente da razão.
Além disso, Kardec sustentava que o Espiritismo deveria manter-se livre do espírito de seita e de ritualismos. Ele defendia que a fé verdadeira, aquela encara a razão “face a face” em qualquer época, implicaria rejeitar o dogmatismo típico das instituições religiosas fechadas. Uma igreja, em sentido tradicional, tende a produzir estruturas de poder, normas fixas e mecanismos de controle da crença. O Espiritismo, ao contrário, se propõe como um campo de estudo progressivo: se novas evidências surgirem, sem violentar a lógica racional, o bom senso ou a ciência, o pensamento deve evoluir. Isso seria incompatível com a rigidez institucional da fé cega e na obediência de seita.

Assim, o que existe são centros espíritas, e não templos sacramentais. Nem mesmo os Centros são isentos de críticas de alguns Espíritas, pois a ideia de um local para encontro semanal com atividades padronizadas que imitam os ritualismos religiosos, já denoram um igrejismo incompatível com o Espiritismo. Os Centros Espíritas devem funcionar como espaços de aprendizado, caridade e burilamento da alma, sem pretensão de exclusividade espiritual e sem ritualismo programado.
O Espiritismo não busca “converter” pessoas por imposição de autoridade religiosa, mas oferecer uma proposta de reflexão sobre a vida, a morte e o destino humano, sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos, sobre as relações entre encarnados e desencarnados e todo campo filosófico que se abre conseguintemente à essa relação. A não adesão e a crítica da existência de uma “igreja espírita” trata-se de uma defesa da Doutrina, já que se está usando o nome do Espiritismo de forma indevida e até equivicada, defesa esta coerente com os deveres de quem preza pelo bom nome da Doutrina Espirita e por respeito ao trabalho de Allan Kardec, trabalho árduo, que tomou o tempo e a saúde do grande Pedagogo. Os princípios kardequianos estabelecem que a verdade espiritual deve ser buscada com liberdade de consciência, mas igualmente com responsabilidade moral.
Em síntese, não há igreja espírita porque o Espiritismo, como Kardec delineou, não quer substituir uma instituição religiosa por outra. Ele pretende ser uma ponte entre razão e espiritualidade, onde a fé não exige submissão, mas entendimento. E isso, por natureza, não combina com o padrão de uma igreja, em seu sentido clássico e teológico.