Todos nós seremos salvos?

Deus é amor… (1Jo 4,16)

Apesar do equívoco dos teólogos que sempre dizem que somente os adeptos de sua religião irão salvar-se, acreditamos que sim, ou seja, todos nós seremos salvos. Algumas passagens bíblicas deixam isso evidente aos que querem ver. Vejamo-las:

Mt 5,43-48: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!’ Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês terão? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se vocês cumprimentam somente seus irmãos, o que é que vocês fazem de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.”

Se o Pai, que está no céu, faz nascer o sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos é porque não estabelece qualquer tipo de discriminação entre as pessoas. Exato, pois “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34). Certamente, seremos responsabilizados pelos nossos atos uma vez que “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27). Entretanto, como “Deus é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno” (Sl 103,8), consequentemente Ele “não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira” (Sl 103,9), daí Ele “não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades” (Sl 103,10), podemos esperar seu amor agindo a nosso favor, dando-nos oportunidades de progresso espiritual. Se Ele nos recomenda amar até mesmo os inimigos, como poderá agir de forma contrária?

Mt 7,7-11: “Peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e abrirão a porta para vocês! Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta. Quem de vocês dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês que está no céu dará coisas boas aos que lhe pedirem.”

Essa comparação de Jesus é o tiro de misericórdia para matar de vez a ideia de pena no inferno eterno, pois obviamente Deus, sendo um Pai infinitamente muito melhor que nós, não daria algo ruim a um de seus filhos. Quer coisa pior que “assar” eternamente no inferno, sem possibilidade de recuperação, nós que ainda somos crianças, espiritualmente falando? Aonde a justiça de formos condenados com pena superior ao tempo que gastamos para infringir a lei? Isso é tão absurdo que ficamos boquiabertos diante daqueles que admitem tal barbaridade.

Mt 21,28-32: “O que vocês acham disto? Certo homem tinha dois filhos. Ele foi ao mais velho, e disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois arrependeu-se, e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho, e disse a mesma coisa. Esse respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?” Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: “O filho mais velho.” Então Jesus lhes disse: “Pois eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu. Porque João veio até vocês para mostrar o caminho da justiça, e vocês não acreditaram nele. Os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram nele. Vocês, porém, mesmo vendo isso, não se arrependeram para acreditar nele.”

Imagine que nessa parábola de Jesus esse filho que não atende prontamente o Pai sejamos nós, o que não seria ilógico afirmar. Devemos observar que, na sequência, ele acaba por ir trabalhar, significando, que também nós ainda faremos o mesmo, várias oportunidades nos serão dadas, não diferente do que aconteceu com os trabalhadores da última hora, que, mesmo quase ao final do dia, ainda se entregaram ao trabalho, porquanto foram também chamados (Mt 20,1-16).

É tempo de os teólogos reformularem seus conceitos de justiça divina, para abraçar o conceito baseado numa visão cósmica das coisas, de modo a não amesquinharem a Deus como o fazem com suas interpretações, para vê-Lo, não como um Deus tribal, mas como o Criador do Universo. Somente assim é que poderão vislumbrar um Deus de amor, cuja justiça, mesmo escapando à nossa compreensão, não é pior que a justiça humana, que, apesar de colocar os infratores da lei em cadeias, dá plena chance de recuperação a todos, de forma a que possam voltar ao convívio social, após terem pago pelo seus erros.

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho
Dez/2006.

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Paulo Neto
É palestrante e articulista da Mídia Escrita Espírita e não Espírita, com vários artigos publicados em um grande número de jornais e revistas, muitos dos quais poderão ser encontrados na Internet e principalmente neste site.

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Esta reflexão não necessariamente representa a opinião do GAE, e é de responsabilidade do expositor.

Respostas de 8

  1. Bom dia, Thiago. Tudo bem, meu querido?

    Rapaz, que bom que você assistiu ao filme que eu usei para ilustrar. Eu, pessoalmente, sou fã do MCU, embora infelizmente me pareça que a qualidade das produções vem caindo.

    Mas isso é outro assunto, alheio à presente discussão.

    Eu gostei da sua definição de amor, embora ela esteja incompleta. Vou tentar complementá-la para enriquecer o debate.

    O amor não é apenas a prática da caridade, nem um sentimento, mas é uma escolha. Penso que a melhor maneira de explicar o amor é a seguinte: o amor é quem Deus é, e é o que ele manifesta para com todos nós.

    Você tem filhos, correto? Pelo seu comentário fica subentendido que sim. Posso ver que você tem o coração de um pai. Então você vai entender o que eu vou explicar.

    Eu, infelizmente, não fui agraciado por Deus com essa benção da paternidade e, por conta de circunstâncias que fogem ao meu controle, acredito que nunca serei, mas usando como referência o meu relacionamento com o meu pai, uma coisa ficou clara:

    Mesmo nos momentos em que eu o contrário ou o decepcionei, ele nunca deixou de me amar. Meus pais podem ter ficado chateados comigo e até chorado por conta de determinadas atitudes minhas em alguns momentos, mas mesmo nesses momentos eles nunca deixaram de me amar e dariam a vida por mim. Assim são os pais.

    Isso é semelhante ao que Deus fez por cada um de nós, pois mesmo quando estávamos debaixo do pecado e éramos seus inimigos, ele se sacrificou para que pudéssemos ser restaurados. Amor, portanto, é uma escolha que envolve sacrifício e renúncia em prol da pessoa amada.

    Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.
    João 15:13

    Não é apenas a prática da caridade, mas uma escolha sincera. A mera prática da caridade pode ser dissimulada. Uma pessoa pode doar tudo o que tem sem realmente amar. Ela pode fazê-lo por hipocrisia ou a contragosto, mas o verdadeiro amor é sempre sincero.

    E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
    1Coríntios 13:3

    Também não é um mero sentimento, pois os sentimentos são inconstantes, enquanto o verdadeiro amor é racional e permanece mesmo quando nossas emoções oscilam (mais uma vez o exemplo dos pais ilustra muito bem). C.S. Lewis até atribui a essa confusão o desgaste dos casamentos, que não são mais baseados no amor, mas na emoção e na excitação. Aquela excitação do início do relacionamento dificilmente permanece, então quando ela acaba, dizem que o “amor” acabou e então se separam.

    Assim é o amor (pelo menos o amor cristão). É algo que tem Deus como a fonte e que devemos manifestar por todos, amigos ou inimigos, como Deus fez na cruz. E ele é relacional, pois Deus é um ser relacional e nós somos portadores da imagem e semelhança dele. Aristóteles já dizia que o homem que consegue viver totalmente sozinho é uma besta ou um deus. Precisamos de outras pessoas, e elas precisam de nós. Precisamos de relacionamentos, e esses relacionamentos devem ser baseados no amor. Não existe amor se não tivermos ninguém para amar. Deus quer estejamos em relacionamento com ele e entre nós.

    para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.
    João 17:21

    “O homem verdadeiramente bom procura elevar, aos seus próprios olhos, aquele que lhe é inferior, diminuindo a distância que os separa.”

    Eu iria até além: o homem verdadeiramente bom sequer vê o outro como inferior. Ele não é orgulhoso, mas reconhece suas limitações e é serve ao seu próximo ao invés de desejar ser servido.

    Com tudo isso, também fica bem claro que o amor não pode ser imposto, e nem pode ser resultado de compulsão, pois assim não seria um amor verdadeiro.

    Dito isso, vamos ao argumento:

    Você argumenta que a evolução espiritual ocorre através da experiência e do exercício contínuo da caridade e do amor, negando que a lei do progresso seja um fator coercitivo. No entanto, ao afirmar que a evolução é inevitável e que, no final, todos alcançarão um estado de iluminação, o espiritismo acaba caindo em um determinismo espiritual disfarçado. A questão essencial permanece: se, independentemente de qualquer coisa, todos acabarão inevitavelmente evoluindo para o bem, então a “liberdade” que o espiritismo propõe é meramente ilusória.

    Veja os termos que Kardec usa para se referir ao progresso (tiradas de diversas partes da Codificação e de outras obras de Kardec que eu posso indicar se você quiser verificar): “inevitável”, “invencível”, “irrecusável” e que “impede o homem de se opor-lhe”. Como algo pode ser inevitável, irresistível, impedindo toda e qualquer oposição, e ainda ser livre? Sendo o progresso assim, ele não deixa espaço para que o homem faça sua escolha. Ele só aceita uma escolha: a escolha para o bem. Enquanto o homem não se voltar para o bem, terá que reencarnar, sujeito a sofrimentos até que se volte para o “amor”. E se ele não quer se sujeitar a esse processo, ainda há reencarnação “compulsória” (sic). Assim como Dormammu ficou preso num loop do tempo, cuja única saída era se render a vontade do herói, o ser humano fica preso num ciclo de reencarnações, pois a única saída é se render a vontade de Deus. Sabe o que é isso? Isso é uma prisão.

    Como eu observei antes, isso traz consequências muito indesejáveis: destrói o verdadeiro amor, que deve ser livre; transforma os seres humanos em autômatos ao destruir sua liberdade.
    Você também argumenta que o castigo eterno seria injusto porque resultaria em punição infinita para pecados finitos. No entanto, esse raciocínio parte de uma visão distorcida da justiça divina. O inferno, na perspectiva cristã, não é um castigo arbitrário imposto por Deus, mas sim a consequência lógica do afastamento permanente do Criador.
    Deus respeita a escolha do ser humano e, se alguém deseja viver separado Dele, essa escolha é concedida. Por mais que eu não seja a vontade de Deus que alguém viva separado dele, ele não força ninguém a amá-lo e respeita a decisão do homem. Ao invés de sujeitá a uma “lei do progresso” ou a um ciclo de reencarnações, ele dá ao homem aquilo que ele (o homem) escolhe.

    Mais uma vez citando o C.S. Lewis:
    “O Irresistível e o Indiscutível são as duas armas que a própria natureza [de Deus] o impede de usá-las. Simplesmente sobrepor-se à vontade humana (o que sua presença certamente faria, ainda que em seu grau mais ínfimo) seria inútil para ele. Ele não pode arrebatar. Pode apenas cortejar.”

    Agora vamos ao seu tratamento das minhas ilustrações:

    Você diz que choca com a razão que pessoas sejam “presas” em uma punição eterna, por “falhas momentâneas”. Em primeiro lugar, não é como se Deus atirasse pessoas em uma prisão, mas são as próprias pessoas que escolhem ir para lá. Mais uma vez, vou explicar o que é o inferno: é um estado e um lugar de separação de eterna de Deus. Não é uma “tortura” ou algo do tipo, mas uma separação. Essa é definição correta. Para não atacar espantalhos, usemos a terminologia adequada.

    Se as pessoas sofrem no inferno, é porque o sofrimento é o resultado natural e a consequência lógica de estar afastado de Deus, não porque haja chamas literais queimando alguém (e, de fato, não há).

    Em segundo lugar, você parece pressupor uma teoria inadequada de justiça.

    Quando você diz que é injusto punir alguém eternamente por falhas momentâneas, você parece pressupor que a duração da punição deve ser proporcional à duração do pecado. Esse está longe de ser o caso. A punição deve ser sempre proporcional à gravidade do pecado, não à sua duração. Um assassinato, por exemplo, pode durar alguns segundos, mas vários sistemas de justiça o puniriam com a prisão perpétua ou pelo com muitos anos de prisão, dada a gravidade do delito. Não importa se o crime é momentâneo, mas sim sua gravidade.

    Em terceiro lugar, ninguém punido no inferno por meras falhas momentâneas, como uma mentira ou um furto. De certa forma todos esses pecados já foram pagos na cruz. Mas a pessoa é punida no inferno por rejeitar a Deus, não amá-lo e não se arrepender de seus pecados. Esse é um pecado de proporções infinitas.

    Por último, é verdade que ninguém consegue cometer infinitos pecados em uma vida finita, mas o que dizer do pós-vida? No inferno, essas pessoas continuam rejeitando e acumulando punição sobre si. Assim, pode-se dizer que o inferno se auto-perpetua.

    Uma ilustração interessante vem do poema Inferno, de Dante. É claro que esse poema não pode ser tomado literalmente, e acredito que o próprio Dante não quisesse isso, mas ele é extremamente útil para ilustrar certas verdades espirituais. Dante cuidadosamente escolheu cada tipo de sofrimento para ilustrar sua crença de que a punição para o pecado é o próprio pecado. Isto é, o pecado de cada pessoa molda sua alma de tal modo que ela cria sua própria agonia. Por exemplo, Satanás fica no fundo do inferno envolto em gelo até a altura do peito. O que mantém o gelo é o interminável bater de suas asas de morcego. O bater das asas exprime vontade dele: “Eu vou voar até as alturas do céu e ser igual a Deus do meu próprio modo”. Se ele pudesse ao menos ser mais humilde e parar de bater suas asas, o gelo derreteria e ele estaria livre. Mas ele nunca fará isso. Como bem dizia C.S. Lewis, “as portas do inferno estão trancadas por dentro”. Assim é o inferno.

    Você diz que o inferno é comparável a que o vilão foi sujeito no filme, mas o inferno é a escolha da própria pessoa que se separa de Deus. Ela vai para lá por sua própria vontade, enquanto o ciclo de reencarnações e a lei do progresso são uma imposição, uma compulsão à qual não está no poder do homem se opor (nas palavras do próprio Kardec). O Espiritismo pode até falar em livre arbítrio, mas é difícil entender esse livre arbítrio se Deus não deixa ao homem a escolha de permanecer em seus caminhos para sempre. Portanto, é o sistema espírita que é análogo a uma prisão, não o sistema cristão.
    Você diz que a ilustração do trem não aplica pelo fato de que “quem o guia somos nós mesmos”. Mas é difícil entender como você é o guia quando suas ações estão sujeitas ao controle de uma lei irresistível e você ainda pode ser reencarnado contra sua vontade (reencarnação compulsória).

    Se você insiste que a escolha de seguir o caminho proposto por Deus é nossa, deixe-me fazer uma pergunta a você: se eu for mau e escolher permanecer devotado ao mal, se eu escolher seguir definitivamente o caminho do mal e rejeitar o bem, Deus vai respeitar essa minha escolha ou ainda vai sempre me impor reencarnações, sofrimentos e uma lei irresistível para fazer com que eu me volte para ele? Se ele não vai me fazer nenhuma imposição, então é possível permanecer eternamente no mal; mas se ele ainda vai usar tais meios coercitivos para me fazer mudar de caminho, então é realmente análogo ao filme, no qual toda vez que Dormammu escolhia fazer o mal, o herói fazia com que ele tivesse que enfrentá-lo de novo, ao invés de respeitar sua escolha. É verdade que no filme o herói fez isso para salvar a terra, então foi justificável, mas não o é no caso de Deus.

    No caso do filme, a escolha do vilão destruiria o universo inteiro, mas no caso de Deus, a escola do homem só destrói a ele mesmo.

    Portanto, o livre arbítrio de que fala o espiritismo é meramente ilusório.

    1. Olá Gabriel! Sua discussão agora gravita em três aspectos, a definição de amor, a separação por analogia do inferno eterno e a inexistência filosófica da reencarnação para burilamento do ser espiritual numa existência terrena, consubstanciada por um livre-arbítrio inexistente na cosmovisão espírita. Creio que o conteúdo que lhe passei não lhe serviu para aprofundamento das suas questões e agora vamos trazê-los para cá visando a minha intenção que medite neles, sem que eu mesmo possa ter que entrar em loop. Vou buscar ser conciso e objetivo e sempre remetendo o que já escrevi alhures. Pelo que notei, é cristão e está aqui buscando algo.

      A DEFINIÇÃO DE AMOR – O conceito do sacrifício vicário foi fortalecido por Paulo e já debati este tema a exaustão, mas vamos lá em poucas palavras sermos claros o suficiente. Se não é pai ainda e não o será, dificilmente entenderá a paternidade com o olhar de filho. Ser pai, é renunciar a si mesmo em prol de um ser que depende de você inteiramente. Enquanto somos filhos, não entendemos o valor da renúncia, não compreendemos a ferramenta das relações humanas que o Pai nos proporciona para desenvolvermos a virtude mais nobre. Quando ilustrei a caridade como o amor em ação é justamente através da ação que o amor se realiza, não olhando para o teto de um templo louvando por aquele que mais nos amou e se permitiu sacrificar para que seu testamento chegasse a nós com mais força. Enquanto o testador vive não há testamento.

      Jesus mudou a forma de amar, pois simplesmente deu mais valor ao publicano sincero do que ao fariseu hipócrita, esteve na casa de cobradores arrependido, mas se permitiu não frequentar o círculo de relações dos sacerdotes que davam mais valor as exterioridades da lei, do que a misericórdia. Ele muda, em seu discurso de despedida o referencial de amor, dando-nos um novo ensinamento “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Percebe a diferença? Os apóstolos tinham na lei “amai o vosso próximo como a si mesmo” e por andarem com o Mestre acompanharam toda a sua expressão plena do que é amar, olhando a adúltera e não condenando-a, curando a hemorroíssa sem se sentir impuro e curando um paralítico em pleno sábado sem subverter a lei de resgatar o que estava perdido.

      Dentro do sacrifício vicário, o seu enfoque teve o objetivo de interromper os sacrifícios da lei e em uma época que eles foram abolidos com a destruição do templo. Ficaria impossibilitado a você compreender o que é amar um filho mais do que a você mesmo, por não viver nesta existência essa experiência, mas vou tentar sem bem didático. Eu sendo um pai dedicado, me esforçando a cada dia em dar o meu melhor ao meu filho, dificilmente sacrificaria o meu filho que tanto amo e é único para resgatar na justiça brasileira um criminoso contumaz. Entende a dificuldade da teologia cristã que apresenta sérias rachaduras em seus princípios? Espero que entenda um dia, quando puder ser pai, reavaliar as suas próprias premissas.

      INFERNO E A REPARTIÇÃO PÚBLICA – Vamos ilustrar 3 exemplos para o fácil entendimento bíblico:

      4. A eternidade de uma prisão temporária

      Na referida sequência do Evangelho, Jesus ensina que aquele que estiver diante do altar e lembrar que alguém tem alguma mágoa contra ele, deixem ali a sua oferta e vá reconciliar-se com o seu irmão, e depois faça a sua oferta. Ele completa o ensinamento dizendo que façamos as pazes com o nosso adversário enquanto estamos no caminho com ele, ou seremos encerrados na prisão e dali não sairá até que seja pago o último ceitil (centavo). Estes ensinamentos demonstram que prece e adoração, estas não têm valor quando o nosso coração está pejado de ódio e rancor. De nada adianta os atos exteriores se o coração não participar, e ele não pode participar se estiver cheio de rancor, despeito, mágoa, tristeza, não havendo o perdão, e isso evidencia que colocamos sobre a nossa carga um fardo pesado, e ao invés do julgo leve e suave do Mestre, damos vazão aos desequilíbrios e doenças da alma que refletem em nosso corpo. Nosso corpo é o Templo vivo do Criador, onde o nosso coração é o altar, logicamente não falamos do coração como um músculo cardíaco que bombeia o sangue para todo o corpo mediante as artérias e as veias, mas o sentimento de nossa alma. Nenhum ato de adoração, de amor a Deus terá validade se não formos capazes de perdoar e amar o nosso próximo, independente dele nos amar ou não. Se amares somente os que vos amam, que fareis demais? Os gentios também amam os que os amam. Quanto ao se reconciliar, fazer as Pazes ou perdoar-se com o adversário, significa que quem odeia, fica magoado, constrói uma prisão em torno de si, assim como recomenda o Cristo: Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele; para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda, e sejas lançado na prisão. (Mt 5:25) Essa prisão é a de ficarmos presos ao adversário para quitar a nossa dívida, ou seja, reconstruir os laços de afetos que foram desfeitos. Portanto, consagra o princípio da reencarnação e a lei de causa e efeito que transcende a figura de linguagem, levando a interpretação correta de ceitil para mágoa, rancor e falta de perdão consigo mesmo e, por conseguinte com o próximo. Estar no caminho com o adversário é estar reencarnado com ele na vida presente. “A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência (Gandhi)” e enquanto não perdoamos a nós mesmos e ao próximo, não teremos como nos libertar desta prisão da consciência. Assim, quando Jesus diz que: “Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil”. (Mt 5:26). Concluindo de que se pagamos esta “dívida” para com o próximo dali poderemos sair e isso derruba o dogma das penas eternas, enquanto consagra a importância do esforço pessoal, pois o Cristo nos dá a chance do resgate, ou o pagamento desta mesma dívida, e se assim não o fosse o verso teria que ser assim: Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali, para assim confirmar as penas eternas e a impossibilidade de resgate, porém Cristo arremata na continuidade de sua fala: enquanto não pagares o último ceitil. (Mt 5:26). (FONTE: A Arte do Debate)

      VI. O inferno e as penas eternas para erros finitos

      Parafraseando Kardec, considerarmos que “o homem é finito em suas qualidades, em suas aptidões, em seus conhecimentos e, consequentemente, não pode produzir senão coisas limitadas. Se o homem pudesse ser infinito no mal que faz, seria igualmente no bem, igualando-se a Deus. Mas se o homem fosse infinito no bem, não praticaria o mal, pois o bem absoluto é a exclusão de todo mal. Admitindo que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria infinitamente vingativo. Sendo Deus infinitamente vingativo, não pode ser infinitamente bom e misericordioso, visto como um destes atributos exclui o outro. Sendo o homem finito, nada que ele faça poderá atingir ou macular a Divindade, haja visto que Ele é infinito e o finito é infinitamente inferior ao infinito. Se Deus é Soberano e Justo, sua Justiça Soberana não é inexorável em termos absolutos, nem leva a complacência a ponto de deixar impunes todas as faltas. Ao contrário, pondera rigorosamente o bem e o mal, recompensando um e punindo outro equitativa e proporcionalmente, sem se enganar jamais na aplicação. Se por uma falta passageira, resultante sempre da natureza imperfeita do homem e muitas vezes da influência do meio em que vive, deixa a alma castigada eternamente e sem clemência, não há proporção entre a falta e o castigo. Reconciliando-se com Deus, arrependendo-se, e pedindo para reparar o mal praticado, o culpado deve voltar-se para o bem, para os bons sentimentos e atitudes. Mas se o castigo é irrevogável, esta subsistência para o bem não frutifica, e um bem não considerado significa injustiça. Entre nós, seres humanos, o condenado que se corrige tem abreviada sua pena. Neste caso, haveria mais equidade na justiça humana do que na divina. Se a pena é irrevogável, inútil será o arrependimento, e o culpado, nada tendo a esperar de sua correção, persiste no mal, de modo que Deus não só o condenaria a sofrer perpetuamente, mas ainda a permanecer no mal por toda eternidade. Nisso não há bondade nem justiça”. E de mais a mais, se o tempo de uma pena é indeterminado, quem é capaz de querer determinar alguma coisa e estabelecer que não tem fim? Já que O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades (Sl 103:8-10)… mas conforme a Sua justiça, ou seja a lei natural da reencarnação (Jo 3:12). O que mais uma vez nos prova exuberantemente ser inconciliável o absurdo das penas eternas, como reflexo de justiça divina. (FONTE: A ARTE DO DEBATE)

      2.3. O Cego de Nascença

      Diante da análise de passagens dos evangelhos e da Tanah em que foram abordados os fatos de reencarnação, ou como a essência (ruach), volta novamente em um novo corpo segundo o entendimento dos Judeus. Assim compreendemos que sem a reencarnação, não há como entendermos os fatos e parábolas que exigem um conhecimento profundo e mais amplo. Desta maneira, veremos se realmente não há nenhuma menção à reencarnação na Bíblia como muitos alegam. Estudaremos com alguns exemplos no Evangelho, para assim verificarmos que neste caso do Cego de Nascença, nos aproximamos mais da realidade dos fatos, a fim de que os leitores tirem as suas conclusões. Mediante o que temos apresentado, e assim faremos a análise do Cego de Nascença. Enfim, iniciaremos o aprofundamento no assunto nas linhas abaixo e nossa conclusão deste episódio. Se levarmos em consideração as únicas possibilidades existentes, em vista das Escrituras, é a de que aquelas pessoas atrelaram o sofrimento do cego à sua conduta ou à conduta de seus pais, em vista da passagem de Ex 20,5-6 já analisada em seus pormenores. Abriremos um parêntese para citar a passagem em análise: Jo. 9,1-3: Quando ele ia passando, viu um homem que era cego de nascença. Os discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, para este homem nascer cego, foi ele ou seus pais? Jesus respondeu: Nem ele nem seus pais, mas isso aconteceu para que as obras de Deus se manifestem nele. Os Judeus temiam que as consequências dos pecados de seus pais viessem a trazer maldições para suas vidas. Mas como um cego de nascença poderia ter pecado? Se a cegueira fosse “castigo de Deus” pelos pecados daquele homem, onde estaria seu pecado, pois era cego desde quando veio ao mundo? Para ter lógica, somente poderia ter cometido suas faltas em uma existência anterior. Fato este que os discípulos acreditavam, pois só assim justificaríamos a pergunta deles para Jesus: Quem pecou para este homem ter nascido cego, foi ele ou seus pais? Diante do princípio inquestionável da justiça divina de que “a cada um segundo suas obras” (Mt 16:27), mencionada pelo Mestre Jesus, pela qual ressalta que ninguém pagará pelo erro do outro, ficando a responsabilidade dos atos atribuída às próprias pessoas que os praticam, e no caso do cego de nascença, não há como atribuir a hereditariedade do pecado, já que ele havia nascido cego e não seguiu os passos dos pais, para como isso se justificar essa suposta tese. Já que para os Judeus a reencarnação fazia parte de suas concepções. Entendemos que se o Cego de Nascença era responsável por seus atos diante do Senhor (Dt 24:16). Este ato, diante da concepção dos apóstolos ao questionarem Jesus, é de que ele houvera praticado em desacordo com a providência em uma existência anterior. A resposta de Jesus: “Nem ele nem seus pais, mas isso aconteceu para que as obras de Deus se manifestem nele”, poderá ser explicada da seguinte forma: diante de tanta ignorância e atraso espiritual daquele povo havia a necessidade de Jesus fazer alguns “milagres” para executar a sua missão, como o fez, no sentido de despertar as criaturas para as verdades do Pai, bem como: Jo 9,4-5: É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. Assim, com Jesus encarnaram vários espíritos que vieram com a tarefa de auxiliá-lo em sua missão e este homem cego era um deles. Aqueles que Ele escolheu como apóstolos largaram tudo para segui-lo, atendendo ao seu chamado, que funcionou como lembrete do compromisso que assumiram, quando estavam no plano espiritual. O fato de Cristo não ter negado a reencarnação é lógico, uma vez que entre os discípulos havia a intuição sobre este assunto (Ex 20,5-6), assim como estamos vendo nesta análise. Por que Jesus não negou a reencarnação neste momento? A resposta é lógica mesmo, já que eles acreditavam que a essência (ruach), voltava novamente, mesmo com uma noção inata e de uma forma ainda não muito clara para eles naquele momento. Destarte, se fosse um erro os Judeus acreditarem na reencarnação, certamente Jesus os repreenderia; mas Jesus não os repreendeu, antes os esclareceu, derrubando, assim, a tese da unicidade da vida terrena, que muitos pregam erroneamente, porque não encontram subsídios nem mesmo na Bíblia para contrariar a crença dos Judeus na reencarnação e as análises que já fizemos. É lógico admitir que os discípulos considerassem as vidas anteriores, como sofrimento do cego e dá ao texto aquilo que ele afirma categoricamente. É justamente o que o texto diz: ‘Os discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, para este homem nascer cego, foi ele ou seus pais?’ Diante deste questionamento dos Apóstolos, foram sugeridas pelos discípulos duas hipóteses para explicar a cegueira daquele que foi curado: a de que o próprio cego tivesse pecado. Ou seja, se os apóstolos sugeriram que foi o cego que houvera pecado segundo o entendimento da época, eles acreditavam em reencarnação, pois não poderia o Cego de Nascença ter pecado sem ter sido numa encarnação anterior. Outra sugestão é a de que seus pais o tivessem feito, mas seus pais eram conhecidos e pelos relatos, estes não eram cegos e nem muito menos pagavam pelos próprios erros, já que estes ainda eram vivos, pelo entendimento dos antirrencarnacionistas não pagaria “até a terceira e quarta geração”? Ademais, por que o cego viria a pagar pelos erros que seus pais haviam cometido, sem ao menos ter a oportunidade de praticá-los, já que houvera nascido cego? O que fica claro é o pensamento de Kardec. Vejamos: CAPÍTULO XV Chamaram segunda vez o homem que estivera cego e lhe disseram: Glorifica a Deus; sabemos que esse homem é um pecador. Ele lhes respondeu: Se é um pecador, não sei, tudo o que sei é que estava cego e agora vejo. – Tornaram a perguntar-lhe: Que te fez ele e como te abriu os olhos? – Respondeu o homem: Já vo-lo disse e bem o ouvistes; por que quereis ouvi-lo segunda vez? Será que queirais tornar-vos seus discípulos? – Ao que eles o carregaram de injúrias e lhe disseram: Sê tu seu discípulo; quanto a nós, somos discípulos de Moisés. – Sabemos que Deus falou a Moisés, ao passo que este não sabemos donde saiu. O homem lhes respondeu: É de espantar que não saibais donde ele é e que ele me tenha aberto os olhos. – Ora, sabemos que Deus não exalça os pecadores; mas, àquele que o honre e faça a sua vontade, a esse Deus exalça. – Desde que o mundo existe, jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. – Se esse homem não fosse um enviado de Deus, nada poderia fazer de tudo o que tem feito. Disseram-lhe os fariseus: Tu és todo pecado, desde o ventre de tua mãe, e queres ensinar-nos a nós? E o expulsaram. (S. João, cap. IX, vv. 1 a 34.)
      25. – Esta narrativa, tão simples e singela, traz em si evidente o cunho da veracidade. Nada aí há de fantasista, nem de maravilhoso. É uma cena da vida real apanhada em flagrante. A linguagem do cego é exatamente a desses homens simples, nos quais o bom-senso supre a falta de saber e que retrucam com bonomia aos argumentos de seus adversários, expendendo razões a que não faltam justeza, nem oportunidade. O tom dos fariseus, por outro lado, é o dos orgulhosos que nada admitem acima de suas inteligências e que se enchem de indignação à só ideia de que um homem do povo lhes possa fazer observações. Afora a cor local dos nomes, dir-se-ia ser do nosso tempo o fato. Ser expulso da sinagoga equivalia a ser posto fora da Igreja. Era uma espécie de excomunhão. Os espíritas, cuja doutrina é a do Cristo de acordo com o progresso das luzes atuais, são tratados como os judeus que reconheciam em Jesus o Messias. Excomungando-os, a Igreja os põe fora de seu seio, como fizeram os escribas e os fariseus com os seguidores do Cristo. Assim, aí está um homem que é expulso porque não pode admitir seja um possesso do demônio aquele que o curara e porque rende graças a Deus pela sua cura! Não é o que fazem com os espíritas? Obter dos Espíritos salutares conselhos, a reconciliação com Deus e com o bem, curas, tudo isso é obra do diabo e sobre os que isso conseguem lança-se anátema. Não se têm visto padres declararem, do alto do púlpito, que é melhor uma pessoa conservar-se incrédula do que recobrar a fé por meio do Espiritismo? Não há os que dizem a doentes que estes não deviam ter procurado curar-se com os espíritas que possuem esse dom, porque esse dom é satânico? Não há os que pregam que os necessitados não devem aceitar o pão que os espíritas distribuem, por ser do diabo esse pão? Que outra coisa diziam ou faziam os padres judeus e os fariseus? Aliás, fomos avisados de que tudo hoje tem que se passar como ao tempo do Cristo. A pergunta dos discípulos: Foi algum pecado deste homem que deu causa a que ele nascesse cego? Revela que eles tinham a intuição de uma existência anterior, pois, do contrário, ela careceria de sentido, visto que um pecado somente pode ser causa de uma enfermidade de nascença, se cometido antes do nascimento, portanto, numa existência anterior. Se Jesus considerasse falsa semelhante ideia, ter-lhes-ia dito: “Como houvera este homem podido pecar antes de ter nascido?” Em vez disso, porém, diz que aquele homem estava cego, não por ter pecado, mas para que nele se patenteasse o poder de Deus, isto é, para que servisse de instrumento a uma manifestação do poder de Deus. Se não era uma expiação do passado, era uma provação apropriada ao progresso daquele Espírito, porquanto Deus, que é justo, não lhe imporia um sofrimento sem utilidade. Quanto ao meio empregado para a sua cura, evidentemente aquela espécie de lama feita de saliva e terra nenhuma virtude podia encerrar, a não ser pela ação do fluido curativo de que fora impregnada. É assim que as mais insignificantes substâncias, como a água, por exemplo, podem adquirir qualidades poderosas e efetivas, sob a ação do fluido espiritual ou magnético, ao qual elas servem de veículo, ou, se quiserem, de reservatório. (KARDEC, A. p. 324-326, grifo nosso) Assim, é uma constatação de Kardec, com pleno amparo nas Escrituras. Jesus entendia a mentalidade da época, de que os judeus ligavam o sofrimento de uma pessoa aos da própria pessoa em vida ou dos atos de seus ascendentes, sendo esta, uma consequência que foi negada por Ezequiel (Ez 18,20), ou seja, todos pagam pelos seus próprios pecados. Contudo, há a inferência ao questionamento dos discípulos com relação à expiação dos pecados também pelo cego. Com isso, leva-nos a crer que a possibilidade de um cego de nascença vir a pecar é inteiramente lógica ao que reza o texto: Jo 9,2: Os discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, para este homem nascer cego, foi ele ou seus pais? Diante esta passagem do Cego de Nascença, é certo de que seus pais não confessaram que fora Jesus que houve curado o próprio filho, com medo de serem expulsos da sinagoga (Jo 9:22). Antes fica evidenciada a intrepidez do Cego de Nascença que pela sua prova enfrenta os Sacerdotes do Templo, bem como podemos ver: Jo 9,27: Ele lhes respondeu: Já vô-lo disse, e não atendestes; por que quereis ouvir outra vez? Porventura, quereis vós também tornar-vos seus discípulos? Sendo ele até mesmo expulso da Sinagoga. A análise deste exemplo do Cego de Nascença, com a ênfase dos Apóstolos, acerca da crença na reencarnação, bem como de que os Judeus também acreditavam. O que nos leva a crer que nesta passagem, o Cego de Nascença veio a contrair a sua deficiência por prova e não por expiação, como alegavam os discípulos. Este era o equívoco que Jesus os esclareceu. (FONTE: A TORÁ E A REENCARNAÇÃO)

      2.4. O Homem Coxo

      Diante do que demonstramos anteriormente. Adentraremos na análise do Homem Coxo que denota uma expiação, diferentemente do cego de nascença que era por motivo de prova. Segue a narrativa de que: Jo 5,5: Estava ali um homem enfermo havia uns 38 anos. Não sabemos se o homem havia nascido coxo, ou adquirido a paralisia de suas pernas na infância, para determinar se este estaria numa expiação, ou numa prova pela sua própria escolha antes de reencarnar, o mais provável é a segunda hipótese. Veremos que quando Jesus curou este homem, assim se sucedeu que: Jo 5,14: Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior. Se o homem adquiriu a sua enfermidade, esta poderia ser certamente o fruto de suas atitudes em desacordo com a providência divina numa encarnação anterior, conforme a advertência de Jesus para que não peques mais, a fim de que não te suceda alguma coisa pior, uma vez que, quando da sua infância, não teve nenhuma possibilidade de fazer algo contras à justiça divina. Uma coisa é certa, a enfermidade do Cego de Nascença foi por prova, enquanto por este relato do Homem Coxo, certamente foi por expiação de um ato praticado numa encarnação anterior, podendo ocorrer algo ainda mais grave numa encarnação posterior, conforme o alertara Jesus dizendo que não pecasse mais ‘para que lhe sucedessem coisa pior’. Se Jesus advertiu o paralítico para que não pecasse mais, é porque ele estava ali purgando seus pecados anteriores. Caso voltasse a pecar teria que voltar, e em situação pior. O espírito pode reencarnar várias vezes, depende do que ele fez em cada encarnação de bom ou ruim gozará ou sofrerá as consequências de suas próprias ações. O maior exemplo disso está na citação de Jesus: Mt 5,26: Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil. Esta passagem se encontra também em Lc 12,59. Enquanto continuar pecando continuará voltando para resgatar as faltas e com isso progredir. Para os que não acreditam na visão da Cabala, o Tanah apresenta várias referências sobre a Reencarnação, como, por exemplo, no Gênesis, numa tradução fiel ao hebraico no capítulo 15,15-16 que já apresentamos. É importante ressaltar aos estimados leitores que a doutrina da reencarnação, também conhecida como transmigração das almas ou Gilgul Neshamot, é uma parte integrante e bastante bem documentada do Judaísmo. A doutrina é amplamente explicada no Zohar e posteriormente pelo rabino Isaac Luria no livro Shaar Ha’Gilgulim (Os Portais das Reencarnações), escrito em meados do século XVI. Com base nos exemplos citados, achamos interessante compartilhar com o tema expiação e provas dentro da visão dos rabinos judeus conforme o que encontramos no Talmud Babilônico. Vejamos: Haolam habá? Dichtiv “Ki ner mitsvá veTorá or vederech chaim tochechot mussar”. [E o Mundo Vindouro? Com que base afirmamos que, através de sofrimentos, é dado ao povo de Yisrael? Pois está escrito: “Porque o mandamento é uma vela, e a Torá uma luz; e as repreensões da disciplina são o caminho da vida” (Mishlei 6:23). Ou seja, as representações deste mundo são o caminho da vida eterna, no Mundo Vindouro.] Tanei Taná camei deRabi Yochanan: Cól haossec baTorá uviguemilut chassadim [Ensinou esta beraitá um Taná, cujo nome não é lembrado diante de Rabi Yochanan: Todo aquele que se ocupa do estudo da Torá e de atos de guemilut chassadim (generosidade e caridade).] Vecover et banav – mochalim ló al cól avonotav. [e enterra seus filhos, quer dizer, em vida os vê partir – tem todos os seus pecados perdoados] Amar lei Rabi Yochanan: bishlama Torá uguemilut chassadim, dichtiv “bechessed veemet yechupar avon”; ‘chessed’ zó guemilut chassadim sheneemar: “rodef tsedacá vachassed imtsá chayim tsedacá vechavod”. ‘emet’ zó Torá, sheneemar “Emet kené veal timcór”. [Disse-lhe Rabi Yochanan: Digamos que Torá e atos de guemilut chassadim sirvam para perdoar os pecados do homem, pois isto podemos concluir a partir do que está escrito: “Pela caridade (chessed) e pela verdade (emet) expia-se a iniquidade” (Mishlei 16:6). ‘Chessed’ se refere a guemilut chassadim (atos de bondade e caridade), pois está dito28: “Aquele que persegue a caridade e a bondade (chessed) achará vida, a justiça e a honra” (Mishlei 21:21). E ‘emet’ (verdade) se refere a Torá, pois está dito: “Compra a verdade, e não a vendas” (Mishlei 23:23).] Ela cover et banav, mináin? Taná lei hahu sava mishnum Rabi Shimon ben Yochai: Atia ‘avon’ ketiv hacha: “bechessed’ veemet yechupar avon” uchtiv hatam: “umeshalem avon avot al cheic beneihem”. [Mas, que aquele que enterra seus filhos tem seus pecados perdoados, de onde aprendemos? Ensinou-lhe (a Rabi Yochanan) o Taná, um idoso, cujo nome não é lembrado, em nome de Rabi Shimon ben Yochai: este aprendizado vem de uma guezerá shavá (que aprendemos de comparação de palavras iguais) ‘iniquidade’ e ‘iniquidade’, pois está escrito aqui: “Pela caridade (chessed) e pela verdade (emet) expia-se a iniquidade (avon)” (Mishlei 16:6), e lá, em outro lugar, está escrito: “E paga a iniquidade dos pais ao seio dos filhos” (Yirmiyahu 32:18). Pois o versículo utilizado por Rabi Yochanan para demonstrar que Torá e Guemilut Chassadim perdoaram os pecados do homem nos remete, através do termo ‘iniquidade’ (avon), a este outro versículo que faz referência aos pecados dos pais serem pagos pelos filhos.] Amar Rabi Yochanan: neg’im uvanim einan yissurin shel ohavá. [Disse Rabi Yochanan: manchas de lepra (Nega’im) e filhos (enterrados pelos pais) não são sofrimentos que resultam do amor Divino.] unegaím ló? Vehatania: cól mi sheiesh bó echad mearbá marot negaim halabu – einan ela mizbach capará! [A Guemará questiona: A lepra não é enviada por amor? Mas nos é ensinado em uma beraitá: todo aquele que é marcado por um desses quatro tipos de mancha leprosa (que aprendemos a partir do que está descrito em Levítico 13) – não é senão um altar de expiação!] Mizbach capará havu, issurin shel ahavá lá havu. [Para resolver essa contradição, podemos dizer que as manchas de lepra são um altar de expiação, pois perdoam os pecados do homem, mas não são sofrimentos enviados por amor.] Vei baeit eima: Há lan veha lehu. [E se quiser, podemos dizer: este (‘altar de expiação) vale para nós, na Babilônia e este (‘sofrimentos de amor’) vale para eles, na Terra de Yisrael. Pois, fora da Terra de Yisrael, as pessoas não se preocupam com as leis de pureza e impureza. Portanto, aquele que é afligido pela lepra na Babilônia segue vivendo entre os seus, mas, em Ysrael, o leproso é obrigado a isolar-se, o que faz com que sua agonia desperte o amor de Deus.] Vei baeit eima: há betsiná, há befarhessia. [E se quiser, podemos também dizer: este (‘altar de expiação’) vale para pessoas afligidas por manchas em lugares escondidos do corpo, que ficam cobertos pela roupa, e este (‘sofrimentos de amor’) vale para pessoas que recebem manchas em lugares expostos, onde todos podem ver, aumentando sua amargura e fazendo com que seu sofrimento desperte o amor Divino.] Uvanin lo? Heich damê? Ileima dehavu lehu umetu – vena amar Rabi Yochanan: dein garmá dassiraá bir. [A Guemará segue questionando as palavras de Rabi Yochanan: E os filhos (quando são enterrados por seus pais) não são um sofrimento de amor? Como assim? Se dissermos que se trata de alguém que tinha filhos e faleceram – o próprio Rabi Yochanan nos traz uma evidência de que este é um sofrimento de amor! Pois Rabi Yochanan costumava levar consigo um pedaço de osso29 e dizia: este osso é um osso de meu décimo filho. Rabi Yochanan tinha 10 filhos que morreram ainda durante sua vida. O Rash-bam (sobre Bava-Batra 116ª) explica que Rabi Yochanan, quando ia consolar algum enlutado, mostrava-lhe este osso e, ao ver o sofrimento que Rabi Yochanan superou, o enlutado se sentia mais confortado. Se Rabi Yochanan, que é um homem tão grande e elevado, recebeu este sofrimento, devemos concluir que é um sofrimento resultado de amor divino (Rashi).] Ela, há delo havu lei kelal, veha dehavu lei umetu. [Então porque Rabi Yochanan disse que a perda de um filho não um sofrimento proveniente do amor Divino? Mas, somos obrigados a concluir que este (que não é sofrimento resultado de amor) se refere à dor de quem é desprovido de filhos, e este (que é um sofrimento derivado de amor) se refere à aflição daquele que teve um filho e o perdeu.]
      __________ 28 – É interessante notar que, em princípio, não precisamos do segndo versículo (Mishlei 21:21) para provar que ‘chessed’ se refere a Guemilut Chassadim, pois esta conexão parace óbvia e implícita. Porque então a Guemará precisou mencionar este segundo trecho? O Rabino Ioshyiahu Pinto, conhecido como Riaf (Síria 1565-1648), entende que a Guemará aqui se refere a atos de bondade que o homem pratica e não à caridade (tsedacá) realizada com dinheiro. Pois o texto da Guemará se refere àquele que se ocupa (ossec) de ‘Guemilut chassadim’, se o texto aludisse à caridade, utilizaria o termo “faz Guemilut Chassadim” e não “se ocupa de”. Portanto, o segundo versículo, que menciona explicitamente ‘tsedacá’ e ‘chessed’, vem provar que são duas virtudes diferentes, e ‘chessed’ na Guemará se refere à Guemilut Chassadim e não a tsedacá. O Éts Yossef entende o contrário. Em sua opinião, a palavra ‘chessed’ é precedida pelo termo ‘tsedacá’ (caridade) indicando uma relação entre as duas virtudes e, portanto, quando a Guemará menciona Guemilut Chassadim se refere, principalmente, à caridade que um homem faz com seu dinheiro. 29 – É curioso que Rabi Yochanan leve consigo um osso, pois partes de um cadáver são uma fonte de impureza. Portanto, o Rivtá explica que não se trata de um osso, mas de um dente. Rashi explica que o osso que ele carregava era muito pequeno e, portanto, não pode ser considerado como fonte de tumá (impureza) (TALMUD BAVLI – BERACHOT, Capítulo 1-3, p. 34-37, grifo no original) O que depreendemos com o relato do homem coxo em paralelo ao que foi exposto no Talmud Babilônico é que as doenças, tal como a paralisia e a lepra, são formas de expiação que visam à purificação do ser que sofre tais enfermidades, e ainda tem os seus pecados perdoados. Se estas consequências provêm de expiações, certamente que são de vidas pretéritas. Este pensamento nos leva à velha história de que muitos estão pregando um Deus que castiga, e infinitamente; mas Este nos dá segundo as nossas obras; com isso, “a cada um segundo as suas obras” e se plantarmos ventos, colheremos tempestades, se plantarmos amor, colheremos misericórdia. Vale ressaltar que não pagamos, apenas colhemos o que plantamos; se, destruímos, teremos que construir, se amamos, seremos amados e esta é a reta justiça de Deus: Reencarnação, nova oportunidade de trabalhar e reconstruir, já que: Dt 24,16: Não se fará morrer os pais pelo testemunho dos filhos, nem os filhos pelo testemunho dos pais. Cada homem morrerá pelo seu pecado. (TANAH, p. 204) Cabe ainda lembrar que as passagens amplamente discutidas na Torá, no Tanah e nos Evangelhos confirmam que um ser infinito não pode atingir a prática de um erro infinitamente, sendo este um golpe de morte à ideia das penas eternas. (FONTE: A TORÁ E A REENCARNAÇÃO)

      Dessa forma, o inferno se tornará em breve uma repartição pública, existe, mas não funciona! Em paráfrase a Ariano Suassuna no Auto da Compadecida.

      REENCARNAÇÃO E LIVRE-ARBÍTRIO – Vamos abrir com o texto da Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1860 > Abril > Ditados espontâneos e dissertações espíritas > Amor e liberdade
      “Amor e liberdade
      Deus é amor e liberdade. É pelo amor e pela liberdade que o Espírito se aproxima dele. Pelo amor desenvolve, em cada existência, novas relações que o aproximam da unidade; pela liberdade escolhe o bem que o aproxima de Deus. Sede ardentes na propagação da nova fé. Que o santo ardor que vos anima, jamais vos faça atingir a liberdade alheia. Evitai, por uma insistência muito grande junto à incredulidade orgulhosa e temível, exasperar uma resistência meio vencida e prestes a render-se. O reino do constrangimento e da opressão acabou; começa o da razão, da liberdade, do amor fraterno. Não é mais pelo medo e pela força que os poderes da Terra adquirirão, de agora em diante, o direito de dirigir os interesses morais, espirituais e físicos dos povos, mas pelo amor à liberdade. (Abelardo)”.

      Para encerrar, a liberdade de escolha de novas oportunidades de resgate reforça o livre-arbítrio e exalta a sabedoria divina, enquanto a punição eterna pelo afastamento do infrator da presença de Deus radica a inflexão de um amor inexistente por aquele que o Mestre sempre buscou o perdido, enquanto que o Pai doador da vida não poderia deixar seu filho sempre longe de seu aprisco, por mais desobediente e relutante no mal que não está no criador, mas na criatura ainda imatura e na infância espiritual! Quando for pai, entenderá. Pergunte uma mãe sincera que ama seu filho e lhe acompanha na prisão diuturnamente se ela queria viver separada dele pela eternidade e aplique este conceito a Deus e o pecador, caso consiga refletir neste axioma, e perceba que seu senso de justiça não excede as leis puramente humanas, rebaixando o amor do Pai, em relação a uma mãe desesperada.

      RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
      1. A Torá e a Reencarnação
      2. Reencarnação ou Penas Eternas? (Dentro do e-book A Arte do Debate)
      3. Seremos Salvos ou Temos que nos Salvar? (Dentro do e-book A Arte do Debate)
      Obs: Minha autoria.

      1. Thiago, percebi que sua resposta se baseou fortemente em textos espíritas, mas senti falta de um exame direto das objeções que apresentei. Minha intenção não é apenas ouvir o que a doutrina espírita diz, mas ver como ela responde às críticas levantadas. Se você apenas cita Kardec ou outros textos sem interagir com os pontos que levantei, isso não avança o diálogo, pois minha questão não é o que o espiritismo ensina, mas se esse ensino se sustenta diante de certas objeções lógicas e filosóficas.

        Por exemplo, eu argumentei que o espiritismo, ao impor a reencarnação como um processo inevitável, torna-se uma espécie de prisão espiritual, onde o indivíduo nunca pode realmente escolher permanecer afastado de Deus. Em vez de refutar isso, sua resposta apenas reafirma que Deus é amor e liberdade, sem explicar como há liberdade quando a escolha de permanecer afastado é negada. O argumento do amor de Deus como justificativa para a reencarnação compulsória precisa ser melhor defendido, pois, no Cristianismo, Deus também ama, mas respeita a decisão do homem de rejeitá-Lo. Por que no espiritismo Deus não respeita essa escolha?

        Além disso, você trouxe uma analogia sobre pais e filhos, mas ela não responde à questão principal. Sim, uma mãe pode visitar o filho na prisão e desejar que ele se regenere, mas ela não pode forçá-lo a mudar. Se esse filho rejeita continuamente qualquer tentativa de mudança, ele não será libertado por mero desejo materno. Como o espiritismo lida com essa questão? Se um espírito quiser se manter no mal eternamente, Deus permitirá ou sempre imporá reencarnações contra sua vontade? Se impõe, então o espiritismo não ensina livre-arbítrio genuíno, apenas uma liberdade limitada a um destino pré-determinado.

        Não digo isso como um ataque, mas como uma crítica construtiva. Ao invés de apenas citar textos espíritas, gostaria de “ouvir” sua defesa do espiritismo. Muitos dos argumentos que levantei talvez nem tenham sido considerados por Kardec, então apenas repetir o que ele disse não é suficiente para respondê-los. Espero que possamos aprofundar o debate de forma racional e respeitosa.

        Dito isso, vamos aos pontos levantados:

        1) Sobre o amor sacrifical no Cristianismo, você disse:

        “Eu sendo um pai dedicado, me esforçando a cada dia em dar o meu melhor ao meu filho, dificilmente sacrificaria o meu filho que tanto amo e é único para resgatar na justiça brasileira um criminoso contumaz. Entende a dificuldade da teologia cristã que apresenta sérias rachaduras em seus princípios? Espero que entenda um dia, quando puder ser pai, reavaliar as suas próprias premissas.”

        Caro Thiago, nenhum pai normal faria algo assim. Eu sei disso.

        No entanto, penso que seu argumento se baseia em uma falsa analogia e em uma compreensão equivocada do sacrifício de Cristo. A sua paternidade não é igual a paternidade entre Deus e Cristo. A relação entre o Pai e Cristo é igual a relação humana entre pais e filhos. Aqui está uma resposta ponto a ponto, expondo as diferenças:

        • Você não tem o direito de sacrificar seu filho, mesmo que quisesse fazê-lo, mas Deus tem o direito sobre toda a vida. O seu argumento assume que Deus está na mesma posição que um pai humano. No entanto, nós não somos os donos da vida de nossos filhos; Deus é. Toda vida pertence a Ele, pois Ele é o Criador e sustentador de todas as coisas (Colossenses 1:16-17). Se Deus quiser tirar ou dar vida, Ele tem o direito absoluto de fazê-lo, pois é soberano sobre a criação.

        • Cristo não foi um mero “sacrificado”, mas se entregou voluntariamente. Diferente de um filho humano que seria morto contra sua vontade, Jesus entregou a própria vida por amor à humanidade. Ele mesmo afirmou: “Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Tenho autoridade para dá-la e para retomá-la.” (João 10:18). O sacrifício foi uma decisão do Pai e do Filho, pois ambos compartilham a mesma vontade divina.

        • Jesus é imortal e ressuscitou, diferentemente de um filho humano. Um pai humano que sacrificasse seu filho perderia sua vida para sempre. No entanto, Jesus é Deus encarnado e não permaneceu morto, mas ressuscitou ao terceiro dia (1 Coríntios 15:3-4). Esse fato muda completamente a comparação, pois a morte de Cristo não foi uma perda definitiva, mas uma vitória sobre o pecado e a morte.

        • O “criminoso contumaz” também é amado por Deus. O seu argumento ignora um dos pontos centrais do Evangelho: “Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8). Aos olhos humanos, pode parecer absurdo sacrificar alguém justo por pecadores, mas Deus vê a humanidade de forma diferente. Ele ama até os piores pecadores e deseja salvá-los, não porque sejam dignos, mas porque Sua graça é infinita.

        Em suma, o seu argumento falha porque:

        – Assume erroneamente que Deus está na mesma posição moral que um pai humano.

        – Ignora a vontade voluntária de Cristo no sacrifício.

        – Desconsidera a ressurreição, tornando a comparação inválida.

        – Não compreende o amor e a justiça de Deus, que se manifestam no sacrifício de Cristo.

        O sacrifício de Cristo não é uma “rachadura” na teologia cristã, mas a maior demonstração de amor e justiça divina.

        2) A respeito do inferno:

        “o homem é finito em suas qualidades, em suas aptidões, em seus conhecimentos e, consequentemente, não pode produzir senão coisas limitadas. Se o homem pudesse ser infinito no mal que faz, seria igualmente no bem, igualando-se a Deus.”

        Esse argumento de Kardec contra a doutrina do inferno é um espantalho porque distorce a verdadeira lógica teológica cristã sobre a condenação eterna. Ele constrói uma falsa premissa e depois a refuta, sem realmente abordar a posição real da teologia cristã. Aqui estão as falhas principais desse argumento:
        Ninguém diz que o homem é capaz de um “mal infinito”. A doutrina cristã não ensina que o homem pode realizar um mal “infinito” no sentido de que seus atos tenham um poder ilimitado. O que se ensina é que a gravidade do pecado não é medida apenas pelo ato em si, mas pela ofensa feita contra um Deus infinito e santo. O pecado não precisa ser “infinito” em quantidade ou intensidade para justificar uma punição eterna; ele é grave porque é uma rejeição consciente e voluntária do Criador.

        Além disso, o inferno não é um castigo arbitrário, mas a consequência da separação de Deus. A condenação eterna não significa que Deus está ativamente infligindo um sofrimento infinito ao homem porque ele cometeu um erro finito. Pelo contrário, significa que aquele que rejeita a Deus escolhe permanecer afastado d’Ele para sempre, e Deus respeita essa escolha (Mateus 25:41; Apocalipse 22:11). O inferno não é um sofrimento imposto de fora, mas a realidade de uma existência sem Deus, que é a fonte de todo bem.

        Kardec também argumenta que, se o homem pudesse realizar um mal “infinito”, então ele também teria que ser capaz de um bem “infinito”, o que o igualaria a Deus. Mas isso é uma falsa equivalência. O homem, por natureza, depende da graça divina para fazer o bem verdadeiro (João 15:5: “Sem mim, nada podeis fazer”). O pecado, por outro lado, é um ato de afastamento de Deus e pode ser realizado sem necessidade de graça especial. A limitação do homem no bem não implica que ele seja igualmente limitado na sua rejeição de Deus.

        O pecado tem consequências eternas, não porque o homem seja infinito, mas porque Deus é eterno. A punição eterna não é uma questão de “quantidade” de pecado, mas de sua natureza e consequência. Quando uma pessoa rejeita a Deus, ela não apenas comete um erro moral temporário, mas define seu destino eterno ao afastar-se d’Aquele que é a fonte da vida. Deus não condena as pessoas ao inferno porque cometeram um pecado “infinitamente grande”, mas porque elas, livremente, rejeitaram a única solução para o pecado: Cristo (João 3:18).

        Portanto, esse argumento erra porque ataca uma caricatura do ensino cristão, em vez de refutar sua verdadeira posição. Ele pressupõe que a condenação eterna depende da capacidade humana de cometer um mal “infinito”, quando na verdade se trata da escolha livre do homem de se afastar de Deus e das consequências dessa decisão. Além disso, ele assume erroneamente que se o homem fosse capaz de pecar infinitamente, ele também poderia fazer um bem infinito por si mesmo, ignorando que todo verdadeiro bem vem de Deus.

        “Se por uma falta passageira, resultante sempre da natureza imperfeita do homem e muitas vezes da influência do meio em que vive, deixa a alma castigada eternamente e sem clemência, não há proporção entre a falta e o castigo.”

        Esse é mais um espantalho, que, de fato, eu já refutei antes. Como você não levou em conta a refutação, vou repeti-la aqui:

        Ninguém punido no inferno por meras falhas momentâneas, como uma mentira ou um furto. De certa forma todos esses pecados já foram pagos na cruz. Mas a pessoa é punida no inferno por rejeitar a Deus, não amá-lo e não se arrepender de seus pecados. Esse é um pecado de proporções infinitas, no sentido de que é a rejeição do Deus Santo e infinito.
        É verdade que ninguém consegue cometer infinitos pecados em uma vida finita, mas o que dizer do pós-vida? No inferno, essas pessoas continuam rejeitando e acumulando punição sobre si. Assim, pode-se dizer que o inferno se auto-perpetua.

        “Se a pena é irrevogável, inútil será o arrependimento, e o culpado, nada tendo a esperar de sua correção, persiste no mal, de modo que Deus não só o condenaria a sofrer perpetuamente, mas ainda a permanecer no mal por toda eternidade. Nisso não há bondade nem justiça”

        Esse argumento contra o inferno é outro espantalho porque deturpa a doutrina cristã tradicional sobre o juízo final, atribuindo-lhe características que não fazem parte de sua real concepção. Aqui estão as principais falhas no raciocínio dele:

        Kardec assume que o arrependimento do pecador ainda poderia ter algum efeito após a morte, mas a doutrina cristã ensina que a oportunidade de arrependimento existe apenas nesta vida (Hebreus 9:27: “Aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo, depois disso, o juízo”). O problema não está em Deus rejeitar um arrependimento sincero, mas no fato de que, após a morte, os ímpios permanecem endurecidos em sua rebelião contra Deus (Lucas 16:26-31).

        O argumento sugere que, se o castigo do inferno fosse eterno, isso tornaria o pecador incapaz de mudar. Mas a doutrina cristã não ensina que os condenados desejam se arrepender e não podem. Pelo contrário, o ensino bíblico indica que os ímpios continuam endurecidos e rebeldes (Apocalipse 22:11: “Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo”). O inferno não os torna pecadores; eles já escolheram rejeitar Deus, e essa rejeição persiste.
        Kardec argumenta que não há justiça nem bondade na condenação eterna, porque Deus estaria impedindo o pecador de mudar. Mas justiça não significa dar infinitas oportunidades. Na verdade, justiça significa dar a cada um o que lhe é devido. Se uma pessoa rejeita livremente a Deus durante toda a sua vida, não há injustiça em Deus respeitar essa escolha na eternidade. Se fosse injusto punir alguém eternamente, também seria injusto recompensar os salvos eternamente, pois a mesma lógica se aplicaria.
        Kardec afirma que Deus estaria forçando o pecador a “permanecer no mal”, mas isso inverte os papéis. O inferno não é um castigo arbitrário que obriga a pessoa a ser má para sempre; é a consequência natural de sua escolha de viver separada de Deus.

        Como C.S. Lewis explicou: “No fim, há apenas dois tipos de pessoas: aquelas que dizem a Deus ‘Seja feita a Tua vontade’ e aquelas a quem Deus diz ‘Seja feita a tua vontade’”. O inferno é, em última instância, a continuação da rebelião voluntária contra Deus.

        Em suma, esse argumento de Kardec contra o inferno não ataca a verdadeira doutrina cristã, mas sim uma versão distorcida dela. Ele ignora a natureza do livre-arbítrio, a dureza do coração humano e a própria definição de justiça. Assim, seu argumento não refuta a doutrina do inferno, mas apenas uma caricatura dela.

        Continua…

        1. 3) A alegação de que João 9:1-3 reflete uma crença em reencarnação com base na pergunta dos discípulos – “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” – é um anacronismo e não se sustenta à luz da história do pensamento judaico. As evidências demonstram que a reencarnação não fazia parte das crenças judaicas na época de Jesus, mas só foi incorporada no misticismo judaico séculos depois, influenciada por correntes externas.

          Em primeiro lugar, a reencarnação não existia no judaísmo do primeiro século.
          Diversas fontes acadêmicas confirmam que a doutrina da reencarnação não fazia parte do judaísmo até pelo menos o século VIII d.C., quando começou a ser adotada por alguns dissidentes judeus, possivelmente sob influência do misticismo islâmico (KOHLER; BROYDÉ, Jewish Encyclopedia). A Enciclopédia Britannica reforça que a reencarnação foi introduzida no judaísmo principalmente através da Cabala, cujas raízes surgem no século XII com textos como o Sefer há-Bahir.
          Lawrence Fine também aponta que as primeiras noções de transmigração de almas entre judeus surgiram entre os séculos VIII e X, influenciadas por muçulmanos mutazilitas e gnósticos ismaelitas (Physician of the soul, healer of the cosmos, p. 304). O rabino Louis Jacobs confirma que essa ideia não aparece na Bíblia nem no Talmude e era desconhecida do judaísmo até o século VIII (The Jewish religion: A companion, p. 417).
          Se a reencarnação era uma crença ausente do judaísmo até muitos séculos após Cristo, então interpretá-la em João 9 é um claro anacronismo.

          Em segundo lugar, o contexto judaico do primeiro século explica a pergunta dos discípulos. A pergunta dos discípulos não implica uma crença em reencarnação, mas reflete concepções rabínicas sobre pecados pré-natais e a culpa herdada dos pais. Como D.A. Carson explica, alguns judeus da época acreditavam que um feto poderia pecar no ventre materno (The Gospel according to John). Midrashim como Genesis Rabbah 63:6 e Canticles Rabbah I, 6, § 3 ensinam que fetos poderiam ter inclinações morais ou, até mesmo, participar espiritualmente em atos de idolatria praticados pela mãe.

          Geisler e Amano reforçam essa perspectiva, mostrando que os judeus acreditavam em pecado pré-natal e na ideia de que um feto poderia ser contaminado espiritualmente pelos pecados da mãe (O fascínio que renasce em cada geração, p. 125). Além disso, também havia a crença de que os pecados dos pais poderiam afetar os filhos.

          Por último, a resposta de Jesus refuta ambas as concepções. Jesus rejeita tanto a ideia de que a cegueira era causada por um pecado cometido pelo próprio cego antes do nascimento quanto a ideia de que foi um castigo pelos pecados dos pais. Ele responde: “Nem ele pecou, nem seus pais, mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (João 9:3). Isso mostra que a pergunta dos discípulos não implicava reencarnação e que Jesus rejeita qualquer noção de culpa pessoal anterior ao nascimento.
          A interpretação espírita de João 9 como evidência da reencarnação ignora o contexto histórico e as crenças judaicas da época. A doutrina da reencarnação era inexistente no judaísmo até séculos depois de Cristo, sendo introduzida apenas no período medieval. O questionamento dos discípulos reflete, na verdade, crenças rabínicas sobre pecados pré-natais e responsabilidade herdada dos pais. Jesus, no entanto, rejeita ambas as explicações, enfatizando que a cegueira do homem tinha um propósito divino maior.

          4) Reencarnação e livre arbítrio

          Sua resposta não refuta o que eu disse, pois não responde à questão central que levantei: Deus respeita ou não a escolha do homem de permanecer no mal?

          O trecho da Revista Espírita que você citou fala sobre amor e liberdade, mas não aborda a questão específica da reencarnação compulsória, que foi o ponto central da minha argumentação. No Espiritismo, o homem não tem a liberdade de rejeitar o “progresso”, pois, segundo Kardec, a evolução espiritual é inevitável e irresistível, independentemente da vontade do indivíduo. Isso significa que a escolha do homem não é realmente respeitada, já que ele será forçado a reencarnar até “aprender a lição”. Isso contradiz o próprio conceito de livre-arbítrio.

          Deus respeita ou não a escolha do homem?

          Se o homem escolhe permanecer no mal e rejeitar a Deus, ele deveria ter a liberdade de seguir sua escolha. No Cristianismo, Deus respeita essa decisão e permite que o pecador permaneça eternamente separado d’Ele (Romanos 1:24-28). No Espiritismo, porém, o homem não pode permanecer na sua escolha, pois uma lei irresistível o obriga a reencarnar até que ele “melhore”. Isso mostra que a liberdade é apenas aparente.

          A analogia com um pai e um filho é falha. Comparar a relação entre Deus e o pecador com a de uma mãe e um filho preso ignora uma diferença fundamental: Deus não impõe Sua presença a ninguém. No exemplo da mãe, o filho pode rejeitá-la, e ela não pode obrigá-lo a amá-la. No entanto, no Espiritismo, o pecador não pode rejeitar Deus para sempre, pois será forçado a “evoluir”. Isso é mais parecido com uma prisão do que com um relacionamento baseado no amor e na liberdade.

          Além disso, o amor verdadeiro não significa obrigar alguém a mudar contra sua vontade. Se um filho rejeita sua mãe e deseja nunca mais vê-la, ela pode sofrer por isso, mas não pode sequestrá-lo e forçá-lo a ficar com ela.

          No Cristianismo, Deus respeita a liberdade do pecador, permitindo que ele siga sua escolha. No Espiritismo, Deus não permite essa escolha, pois impõe a reencarnação compulsória.

          Você afirma que “o reino do constrangimento e da opressão acabou”, mas a doutrina espírita impõe um ciclo de reencarnações irresistível. Isso não é diferente de um professor que diz a um aluno: “Você pode escolher não estudar, mas eu vou te reprovar e te obrigar a repetir de ano quantas vezes forem necessárias até que você aprenda.” Isso não é liberdade, mas um sistema de coerção.

          Sua resposta desvia do ponto principal. O problema que levantei não é se Deus é amoroso ou não, mas se Ele respeita a liberdade do homem. No Cristianismo, Ele respeita. No Espiritismo, não. Seu argumento falha porque assume que Deus deve forçar as pessoas a ficarem com Ele, o que contradiz a própria ideia de amor e liberdade.

          Por fim, vou tomar a liberdade de acrescentar mais um ponto: eu argumentei que a lei do progresso torna Deus um tipo de tirano que não respeita o livre arbítrio de suas criaturas de rejeitá-lo. Vou acrescentar que essa ideia de progresso (que tem clara influência positivista) afeta o caráter de Deus de outro modo também.

          Deus é perfeitamente bom. Sendo perfeitamente bom, ele não poderia criar nada que fosse maligno.

          Por isso, o Cristianismo ensina que Deus criou anjos e seres humanos bons, que depois caíram pelo mau uso de seu próprio livre arbítrio. Deus não os criou maus.

          Porém, para o Espiritismo, que ensina que há uma lei do progresso, se retrocedessemos no tempo, encontraríamos seres cada vez menos evoluídos e mais maus. A inferência lógica é que Deus os criou maus e então, pela lei do progresso, eles vem evoluindo.

          Nesse ponto, um espírita me responderia que Deus não os criou maus, mas meramente “simples e ignorantes”. Então como surgiram os espíritos maus e obsessores? Se esses espíritos simples e ignorantes se tornaram maus e obsessores, então eles retrocederam, de modo que a lei do progresso não se sustenta. A condição de simples e ignorantes é melhor que a de maus e obsessores.
          De fato, esse argumento sim já era conhecido de Kardec em sua época, e ele tentou refutá-lo na Revista Espírita:

          “Outra questão muitas vezes aventada é esta: Como o Espírito foi criado simples e ignorante, com a liberdade de fazer o bem ou o mal, não haveria queda moral para aquele que tomasse o mau caminho, desde que chega a fazer o mal que antes não fazia?
          Esta proposição não é mais sustentável que a precedente. Só há queda na passagem de um estado relativamente bom a um pior. Ora, criado simples e ignorante, o Espírito está, em sua origem, num estado de nulidade moral e intelectual como a criança que acaba de nascer. Se não fez o mal, também não fez o bem. Nem é feliz, nem infeliz. Age sem consciência e sem responsabilidade. Desde que nada tem, nada pode perder, como não pode retrogradar. Sua responsabilidade não começa senão no momento em que se desenvolve o seu livre-arbítrio. Seu estado primitivo não é, pois, um estado de inocência inteligente e raciocinada. Conseguintemente, o mal que fizer mais tarde, infringindo as leis de Deus, abusando das faculdades que lhe foram dadas, não é um retorno do bem ao mal, mas a conseqüência do mau caminho por onde se embrenhou.” (Do princípio da não-retrogração do Espírito, Revista Espírita, Junho de 1863)

          Porém, essa tentativa de refutação não se sustenta.

          Kardec argumenta que não pode haver queda moral porque o Espírito, ao ser criado, está em um estado de “nulidade moral e intelectual”, comparável a uma criança recém-nascida. Segundo ele, como o Espírito ainda não fez nem o bem nem o mal, não há o que perder, e, portanto, não pode “cair”.
          No entanto, essa definição de queda é restritiva. Cair significa simplesmente sair de um estado (qualquer que seja) para um estado pior, portanto há, sim, uma queda no caso do Espírito que escolhe o mal.
          1. O Espírito tinha sim algo a perder: sua inocência inicial
          Ainda que o Espírito não tenha começado em um estado de bondade desenvolvida, ele tinha, pelo menos, um estado de inocência original. Se ele escolhe o mal, ele perde essa inocência e se corrompe, o que significa que houve, de fato, uma queda.
          Imagine, por um momento, que você pega um bebê no colo. Olhe bem para ele. Ele está ali, tão puro, tão inocente, tão cheio de potencial. Nenhuma malícia, nenhuma culpa. Ele é um ser recém-chegado a este mundo, completamente desprovido de qualquer escolha errada, completamente imune ao mal. Agora, imagine que, ao longo dos anos, esse bebê cresce e, ao invés de se tornar uma pessoa de caráter forte e bondade, se transforma em alguém que escolhe o mal. Alguém que se entrega à corrupção, à crueldade, à mentira, ao egoísmo.
          Seria que, em sua opinião, nada foi perdido? Não seria uma lamentável queda? Uma perda irreparável do que esse ser tão puro tinha no início de sua jornada? E se você ainda tem dúvidas, lembre-se de que Kardec mesmo compara os espíritos recém-criados a bebês recém-nascidos. E, como um bebê que perde sua inocência ao crescer e escolher o mal, assim também o espírito, ao voltar-se para o mal, experimenta uma queda dolorosa e trágica, pois no início não tinha malícia ou culpa.
          A verdade é que não importa quão pequeno ou ingênuo o espírito seja no momento de sua criação. A queda não precisa ser uma perda de uma bondade consciente e inteligente; ela ocorre até mesmo quando se escolhe o caminho errado antes não seguido, quando se perde a inocência inicial e se volta para a maldade. Assim como seria uma tragédia para um bebê perder sua inocência, também é uma tragédia para o espírito, inicialmente simples e ignorante, se voltar para o mal. A queda é tão devastadora quanto a transformação de um ser tão inocente em alguém perdido no mal.
          2. A responsabilidade moral surge gradativamente, mas a queda acontece no momento da escolha errada
          Kardec sugere que o Espírito não pode cair porque, no início, não tem responsabilidade moral. Mas isso não impede que haja uma queda. Mesmo que a responsabilidade moral cresça aos poucos, o Espírito pode sair de um estado melhor para um pior assim que começa a tomar decisões erradas.
          Por exemplo:
          – Um jovem pode ser ingênuo e ignorante sobre a corrupção, mas, ao longo do tempo, se torna um criminoso.
          – Mesmo que ele nunca tenha sido “bom” no sentido pleno, houve uma queda: ele saiu de uma condição relativamente melhor (ignorância moral) para uma pior (corrupção ativa).
          Se um Espírito inicialmente desconhece o mal, mas depois se entrega a ele, ele claramente caiu — porque saiu de um estado sem culpa para um estado de culpa.
          3. Se o Espírito “se embrenha pelo mau caminho”, então ele saiu de um estado para outro pior
          Kardec afirma que quando o Espírito faz o mal, isso não é uma queda, mas apenas uma consequência do caminho que escolheu. Mas essa afirmação é contraditória:
          – Se antes ele não fazia o mal e depois passa a fazê-lo, ele saiu de um estado melhor para um pior.
          – O próprio Kardec usa a expressão “se embrenhar pelo mau caminho”, o que sugere uma deterioração da condição do Espírito.
          Se um Espírito estava em um estado de ignorância e ausência de mal, mas depois se corrompe e se torna inclinado ao mal, ele caiu. Isso é uma perda objetiva.

          A argumentação de Kardec falha. O Espírito não precisa começar em um estado moralmente elevado para sofrer uma queda. Basta que ele saia de um estado inicial sem culpa e entre em um estado de culpa e corrupção moral. Isso já configura uma queda moral real. Portanto, a lei do progresso proposta pelo espiritismo, não se sustenta, pois o espírito pode sim cair.

  2. Corrigindo: no espiritismo existe uma coisa chamada lei do progresso, que é imposta aos homens e é descrita como “inevitável”, “invencível” e “irrecusável”, e que não está no poder do homem se opor a ela.

  3. Não vou fazer um exegese nesses textos para mostrar que realmente defendem um castigo eterno (embora eu possa fazê-lo), inclusive porque isso não seria convincente para espíritas, que não acreditam na Bíblia.

    Ao invés disso eu vou usar uma abordagem filosófica para mostrar como a visão espírita não faz sentido:

    Um cristão diz que nós devemos amar a Deus e devemos amar ao nosso próximo. Porém o amor é um sentimento livre. Você não pode ser forçado a amar alguém. Amor forçado não é amor. Por isso Deus dá aos seres humanos o livre arbítrio para que eles escolham amar ou escolham não amar se assim quiserem. E é uma escolha real, não é como se Deus permitisse que a pessoa resistisse por um tempo mas enquanto isso colocasse uma pressão irresistível para forçar ela a, cedo ou tarde, exercer algum amor. A única forma de Deus garantir que todos acabariam exercendo o amor seria se ele tirasse livre arbítrio e exercer seu controle sobre a vontade das pessoas. Pois bem, Deus no espiritismo faz exatamente isso, pois no espiritismo existe uma coisa chamada lei do progresso, quem posta os homens e é descrita como “inevitável”, “invencível” e “irrecusável”, e que não está no poder do homem se opor a ela. Kardec diz até que há reencarnação compulsória. Então sim no espiritismo todo mundo vai acabar sendo “salvo”, mas não por sua própria escolha, mas por que a lei do progresso cedo ou tarde se impõe às pessoas e elas acabam exercendo um amor irreal.

    No espiritismo, Deus essencialmente prende os seres humanos em um loop eterno de reencarnações até que, inevitavelmente, eles se tornem bons. Isso não é um verdadeiro livre-arbítrio, pois, mesmo que alguém resista ao bem, essa resistência é apenas temporária dentro do sistema. No final, a “escolha” já está predeterminada: todos acabarão evoluindo.

    Isso é muito parecido com o que o Doutor Estranho fez com o vilão Dormammu no filme de 2016. Ele não deu ao vilão uma escolha real, mas o prendeu em um ciclo onde a única saída era se render. Dormammu não escolheu abandonar a Terra por livre e espontânea vontade; ele simplesmente não tinha alternativa viável.

    Um experimento mental ilustra bem isso:

    Imagine que você está jogando um jogo onde, a cada jogada, você toma uma decisão aparentemente importante. No entanto, alguém manipulou o jogo de modo que independentemente da escolha que você fizer, o jogo sempre reinicia e te leva de volta ao mesmo ponto, até que a opção “correta” (a opção que a pessoa que manipulou o jogo queria que você escolhesse) seja tomada.

    Você diria que tem liberdade se o resultado final já estivesse traçado, não importando as jogadas?

    Ou podemos pensar em uma ilustração melhor ainda:

    Imagine que alguém te prendeu em um trem que segue um percurso fechado, de modo que por mais que você queira descer em uma estação diferente, todas as vias levam inevitavelmente de volta à mesma estação de origem.

    Nessa situação, você consideraria que tem liberdade para escolher seu destino? Pode ser que a estação para qual te forçaram a ir seja uma estação bem mais bonita e confortável do que aquela para qual você pretendia ir, mas isso não justifica que diz respeito à sua vontade. Por mais que a estação para qual você está indo seja melhor do que aquela para a qual você queria ir, para você a melhor estação seria pior, pois não é o lugar onde você gostaria de ir. Mesmo que depois você mude de opinião, se acostume e passe a considerar essa estação como melhor, não muda o fato de que você foi forçado a ir a ela contra a sua vontade. Seu livre arbítrio não foi respeitado.

    O espírita pode tentar se gabar de que sua crença não inclui um inferno eterno, mas faz isso à custa da dignidade e da liberdade do ser humano, que seria destruída se o espiritismo fosse verdadeiro. No Cristianismo, a liberdade do homem de escolher seu estado eterno é respeitada.

    Há vários outros argumentos filosóficos que poderiam ser usados contra o espiritismo, mas eu escolhi esse porque tem a ver com esse artigo.

    1. Tem toda a liberdade de fazer a devida exegese e apresentamos as pesquisas abaixo para iniciar sua análise:

      1º – Reencarnação ou Penas Eternas? [https://apologiaespirita.com.br/reencarnacao-ou-penas-eternas/]
      2º – Seremos Salvos ou Teremos que nos Salvar? [https://apologiaespirita.com.br/seremos-salvos-ou-teremos-que-nos-salvar/]

      Caso queira se propor a outros temas, recomendamos as obras abaixo e que estão sendo produzidas em nossa nova série Teológica do canal do Youtube:

      1º – A Arte do Debate [https://apologiaespirita.com.br/a-arte-do-debate/]
      2º – A Torá e a Reencarnação [https://apologiaespirita.com.br/a-tora-e-a-reencarnacao/]
      3º – O Espiritismo e as Incoerências de um Pastor [https://apologiaespirita.com.br/o-espiritismo-e-as-incoerencias-de-um-pastor/]
      4º – A Grande Tribulação e o seu Cumprimento Histórico [https://apologiaespirita.com.br/a-grande-tribulacao-e-o-seu-cumprimento-historico/]

      Serie Teológica no YouTube [https://www.youtube.com/playlist?list=PLoUTkFdCJ23flM2Cv_Zouy5n_Q2Z2sfeH]

      Agora vamos para seus argumentos filosóficos em defesa das penas eternas em oposição a reencarnação através de uma distorção cognitiva.

      1º Caso: Deus, amor e a Marvel
      Será primeiro necessário a definição de amor que é um exercício diário pela prática da caridade que se estende num sentido muito mais profundo do que apenas suprir em recursos materiais a uma pessoa que necessite pelo menos do básico para ter sua dignidade como ser humano. Vamos dar o embasamento a nossa abordagem com a questão 886 da obra ‘O Livro dos Espíritos’ que trata justamente da filosofia que você deu início em sua abordagem.

      886. Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?

      “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”

      O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejaríamos nos fosse feito. Tal o sentido destas palavras de Jesus: Amai-vos uns aos outros como irmãos.

      A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola, abrange todas as relações em que nos achamos com os nossos semelhantes, sejam eles nossos inferiores, nossos iguais, ou nossos superiores. Ela nos prescreve a indulgência, porque de indulgência precisamos nós mesmos, e nos proíbe que humilhemos os desafortunados, contrariamente ao que se costuma fazer. Apresente-se uma pessoa rica e todas as atenções e deferências lhe são dispensadas. Se for pobre, toda gente como que entende que não precisa preocupar-se com ela. No entanto, quanto mais lastimosa seja a sua posição, tanto maior cuidado devemos pôr em lhe não aumentarmos o infortúnio pela humilhação. O homem verdadeiramente bom procura elevar, aos seus próprios olhos, aquele que lhe é inferior, diminuindo a distância que os separa.

      Após embasarmos o real sentido de amar que no grego é o ‘agape’ (ἀγάπη), percebemos que pela lei natural da reencarnação, temos a oportunidade de exercitar a cada existência uma dessas virtudes de benevolência, indulgência, perdão das ofensas, alteridade e desenvolver nossa humanidade. Nosso livre arbítrio seria o motor de enxergar e repensar nossas atitudes perante nosso próximo que é o veiculo inicial de exercitarmos nosso amor fraternal. Para termos o amor para com o Eterno que nos criou, temos a oportunidade de sermos cocriadores e através de nossos filhos, entendermos um amor paternal e compreender como seria o amor de nosso Pai. Somente através das experiências terrenas é que temos a capacidade de desenvolver as virtudes necessárias para conseguirmos amar ao nosso próximo e a Deus acima de todas as coisas, pois temos que aprender a amar as pessoas e usar as coisas, sem nos prendermos em amar as coisas e usar as pessoas. Somos seres espirituais numa experiência terrena que inclui no passado, presente e futuro a experiência necessária a desenvolver todas as nossas virtudes e nos aproximarmos do Criador sem ser algo irreal e forçado, mas vivido e experenciado em oportunizar ao nosso semelhantes caminhar conosco nesta jornada, sem que possamos dentro da cosmovisão reducionista de um inferno eterno que pune para toda a eternidade nossos irmãos que praticaram delitos em apenas uma existência por ignorância, ou até mesmo pela má índole. Este é o sendo de justiça e amor que o Espiritismo nos apresenta e é completamente livre em aceitar quem o desejar.

      No cristianismo criado pelos homens a divagar sobre a divindade prendem os infratores num loop eterno de punição por falhas momentâneas. Isso sim choca a razão e tira completamente a liberdade de qualquer que seja que se cansar de viver eternamente numa atitude que o faz sofrer. É preciso o bom senso de extirpar essa teoria absurda da humanidade cada vez mais desumana com os seus.

      O que aconteceu com Dormammu e Dr. Estranho é justamente isso, todas as suas ações deliberadas e consequências de suas atitudes levavam-no a uma derrota independente de sua escolha atual, já que a concretização era se render ante a derrota inevitável. Os produtores deram este loop em 10 anos e os fãs o levaram até 10.000 anos preso no loop de Agamotto.

      Enquanto tivermos o mal dentro de nós e por tentativa e erro formos moldando nosso caráter, abandonaremos todo o comportamento em desacordo com a lei divina que nos afasta de Deus e nos aproxima do sofrimento pelas eras seguintes, sem perdermos nosso livre arbítrio e sermos forçados pela lei do progresso, mas conscientes de que iremos progredir com nosso próprio esforço e consciência.

      2º Caso: O Jogo inusitado

      Para iniciar nossa abordagem, segue o artigo abaixo da Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1863 > Outubro > Dissertações espíritas >

      Livre arbítrio e presciência divina

      (Thionville, 5 de janeiro de 1863 – Médium: Dr. R…)

      Há uma grande lei que domina tudo no Universo: a lei do progresso. É em virtude dessa lei que o homem, criatura essencialmente imperfeita, deve, como tudo quanto existe em nosso globo, percorrer todas as fases que o separam da perfeição. Sem dúvida Deus sabe quanto tempo cada um levará para chegar ao fim. Porém, como todo progresso deve resultar de um esforço tentado para realizá-lo, não haveria nenhum mérito se o homem não tivesse a liberdade de tomar este ou aquele caminho. Com efeito, o verdadeiro mérito não pode resultar senão de um trabalho operado pelo Espírito para vencer uma resistência mais ou menos considerável.

      Como cada um ignora o número de existências que consagrou ao seu adiantamento moral, ninguém pode prejulgar nesta grande questão, e é sobretudo aí que brilha de maneira admirável a infinita bondade de nosso Pai Celeste que, ao lado do livre-arbítrio que nos conferiu, nada obstante semeou em nosso caminho marcos indicadores que iluminam os desvios. É, pois, por um resto de predomínio da matéria que muitos homens se obstinam em ficar surdos às advertências que lhes chegam de todos os lados, e preferem gastar em prazeres enganadores e efêmeros uma vida que lhe havia sido concedida para o avanço de seu Espírito.

      Não se poderia afirmar sem blasfêmia que Deus tenha querido a infelicidade de suas criaturas, pois os infelizes expiam sempre, tanto uma vida anterior mal empregada quanto sua recusa a seguir o bom caminho, quando este lhe era mostrado claramente.

      Assim, depende de cada um abreviar a prova que deve sofrer. Por isso, guias seguros bastante numerosos lhe são concedidos para que seja inteiramente responsável por sua recusa de seguir seus conselhos, e ainda, neste caso, existe um meio certo de abrandar uma punição merecida, dando sinais de sincero arrependimento e recorrendo à prece, que jamais deixa de ser atendida, quando feita com fervor. O livre-arbítrio existe, pois, efetivamente, no homem, mas com um guia: a consciência.

      Vós todos que tendes acesso ao grande foco da nova ciência, não negligencieis de vos penetrar das eloquentes verdades que ela vos revela, e dos admiráveis princípios que são a sua consequência. Segui-os fielmente, pois é aí, sobretudo, que brilha o vosso livre-arbítrio.

      Pensai, por um lado, nas consequências fatais que para vós arrastaria a recusa de seguir o bom caminho, como nas magníficas recompensas que vos aguardam caso obedeçais às instruções dos bons Espíritos. É aí que brilhará, por sua vez, a presciência divina.

      Em vão se esforçam os homens em busca da verdade por todos os meios que julgam ter na Ciência. Esta verdade, que lhes parece escapar, segue sempre ao seu lado, e os cegos não a percebem.

      Espíritos sábios de todos os países, aos quais é dado levantar uma ponta do véu, não negligencieis os meios que vos são oferecidos pela Providência! Provocai nossas manifestações; fazei que delas aproveitem todos os vossos irmãos menos bem aquinhoados que vós; inculcai em todos os preceitos que vos chegam do mundo espírita, e tereis bem merecido, porque tereis contribuído em larga parte para a realização dos desígnios da Providência.

      ESPÍRITO FAMILIAR

      Por uma má interpretação de um exemplo que não reflete a dinâmica da reencarnação e suas consequências, não voltamos ao ponto inicial antes não aprendido, novas circunstância se fazem presentes numa nova existência até percebermos pela nossa própria vontade e auxílio da espiritualidade a mudar de caminho e definir a rota segura. É preciso corrigir este seu exemplo com essa distorção cognitiva.

      3º Caso: O Trem desgovernado

      Este exemplo foi já bem ilustrado e sua proposta de um percurso de uma condução hermeticamente fechada para um destino previamente conhecido não se aplica para nós, pelo simples fato que quem o guia somos nós mesmos e pela desgovernança de nossas ações, Deus está sempre presente a nos apresentar o caminho, mas somos nós que devemos percorrer por ele por nossa livre iniciativa. Não há um retorno a um início conhecido, ou uma indução a escolha de desembarcar num caminho que é forçado pelo Criador para que possamos segui-lo. A escolha sempre será nossa e a direção sempre será sugerida, mas se vamos prosseguir nela, dependerá de nós. O referencial precisará ser corrigido, já que Deus conhece o percurso e nós não, mas Ele não age por nós, apenas coloca situações para as lições que precisamos aprender.

      O Espiritismo não se gaba de nada, apenas propõe, cabendo a nós seguirmos no estudo de seus postulados e na nossa reforma íntima. Quem quer se gabar de algo é aquele que nada oferece de melhor e acredita que seu caminho é o único caminho. Se citar que Jesus é o caminho, a verdade e a vida, saiba que este é universal e não pertence a um credo, uma doutrina e muito menos a um representante na Terra por ele.

      1. Boa tarde, Thiago. Tudo bem, meu querido?

        Rapaz, que bom que você assistiu ao filme que eu usei para ilustrar. Eu, pessoalmente, sou fã do MCU, embora infelizmente me pareça que a qualidade das produções vem caindo.

        Mas isso é outro assunto, alheio à presente discussão.

        Eu gostei da sua definição de amor, embora ela esteja incompleta. Vou tentar complementá-la para enriquecer o debate.

        O amor não é apenas a prática da caridade, nem um sentimento, mas é uma escolha. Penso que a melhor maneira de explicar o amor é a seguinte: o amor é quem Deus é, e é o que ele manifesta para com todos nós.

        Você tem filhos, correto? Pelo seu comentário fica subentendido que sim. Posso ver que você tem o coração de um pai. Então você vai entender o que eu vou explicar.

        Eu, infelizmente, não fui agraciado por Deus com essa benção da paternidade e, por conta de circunstâncias que fogem ao meu controle, acredito que nunca serei, mas usando como referência o meu relacionamento com o meu pai, uma coisa ficou clara:

        Mesmo nos momentos em que eu o contrário ou o decepcionei, ele nunca deixou de me amar. Meus pais podem ter ficado chateados comigo e até chorado por conta de determinadas atitudes minhas em alguns momentos, mas mesmo nesses momentos eles nunca deixaram de me amar e dariam a vida por mim. Assim são os pais.

        Isso é semelhante ao que Deus fez por cada um de nós, pois mesmo quando estávamos debaixo do pecado e éramos seus inimigos, ele se sacrificou para que pudéssemos ser restaurados. Amor, portanto, é uma escolha que envolve sacrifício e renúncia em prol da pessoa amada.

        Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.
        João 15:13

        Não é apenas a prática da caridade, mas uma escolha sincera. A mera prática da caridade pode ser dissimulada. Uma pessoa pode doar tudo o que tem sem realmente amar. Ela pode fazê-lo por hipocrisia ou a contragosto, mas o verdadeiro amor é sempre sincero.

        E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
        1Coríntios 13:3

        Também não é um mero sentimento, pois os sentimentos são inconstantes, enquanto o verdadeiro amor é racional e permanece mesmo quando nossas emoções oscilam (mais uma vez o exemplo dos pais ilustra muito bem). C.S. Lewis até atribui a essa confusão o desgaste dos casamentos, que não são mais baseados no amor, mas na emoção e na excitação. Aquela excitação do início do relacionamento dificilmente permanece, então quando ela acaba, dizem que o “amor” acabou e então se separam.

        Assim é o amor (pelo menos o amor cristão). É algo que tem Deus como a fonte e que devemos manifestar por todos, amigos ou inimigos, como Deus fez na cruz. E ele é relacional, pois Deus é um ser relacional e nós somos portadores da imagem e semelhança dele. Aristóteles já dizia que o homem que consegue viver totalmente sozinho é uma besta ou um deus. Precisamos de outras pessoas, e elas precisam de nós. Precisamos de relacionamentos, e esses relacionamentos devem ser baseados no amor. Não existe amor se não tivermos ninguém para amar. Deus quer estejamos em relacionamento com ele e entre nós.

        para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.
        João 17:21

        “O homem verdadeiramente bom procura elevar, aos seus próprios olhos, aquele que lhe é inferior, diminuindo a distância que os separa.”

        Eu iria até além: o homem verdadeiramente bom sequer vê o outro como inferior. Ele não é orgulhoso, mas reconhece suas limitações e é serve ao seu próximo ao invés de desejar ser servido.

        Com tudo isso, também fica bem claro que o amor não pode ser imposto, e nem pode ser resultado de compulsão, pois assim não seria um amor verdadeiro.

        Dito isso, vamos ao argumento:

        Você argumenta que a evolução espiritual ocorre através da experiência e do exercício contínuo da caridade e do amor, negando que a lei do progresso seja um fator coercitivo. No entanto, ao afirmar que a evolução é inevitável e que, no final, todos alcançarão um estado de iluminação, o espiritismo acaba caindo em um determinismo espiritual disfarçado. A questão essencial permanece: se, independentemente de qualquer coisa, todos acabarão inevitavelmente evoluindo para o bem, então a “liberdade” que o espiritismo propõe é meramente ilusória.

        Veja os termos que Kardec usa para se referir ao progresso (tiradas de diversas partes da Codificação e de outras obras de Kardec que eu posso indicar se você quiser verificar): “inevitável”, “invencível”, “irrecusável” e que “impede o homem de se opor-lhe”. Como algo pode ser inevitável, irresistível, impedindo toda e qualquer oposição, e ainda ser livre? Sendo o progresso assim, ele não deixa espaço para que o homem faça sua escolha. Ele só aceita uma escolha: a escolha para o bem. Enquanto o homem não se voltar para o bem, terá que reencarnar, sujeito a sofrimentos até que se volte para o “amor”. E se ele não quer se sujeitar a esse processo, ainda há reencarnação “compulsória” (sic). Assim como Dormammu ficou preso num loop do tempo, cuja única saída era se render a vontade do herói, o ser humano fica preso num ciclo de reencarnações, pois a única saída é se render a vontade de Deus. Sabe o que é isso? Isso é uma prisão.

        Como eu observei antes, isso traz consequências muito indesejáveis: destrói o verdadeiro amor, que deve ser livre; transforma os seres humanos em autômatos ao destruir sua liberdade.
        Você também argumenta que o castigo eterno seria injusto porque resultaria em punição infinita para pecados finitos. No entanto, esse raciocínio parte de uma visão distorcida da justiça divina. O inferno, na perspectiva cristã, não é um castigo arbitrário imposto por Deus, mas sim a consequência lógica do afastamento permanente do Criador.
        Deus respeita a escolha do ser humano e, se alguém deseja viver separado Dele, essa escolha é concedida. Por mais que eu não seja a vontade de Deus que alguém viva separado dele, ele não força ninguém a amá-lo e respeita a decisão do homem. Ao invés de sujeitá a uma “lei do progresso” ou a um ciclo de reencarnações, ele dá ao homem aquilo que ele (o homem) escolhe.

        Mais uma vez citando o C.S. Lewis:
        “O Irresistível e o Indiscutível são as duas armas que a própria natureza [de Deus] o impede de usá-las. Simplesmente sobrepor-se à vontade humana (o que sua presença certamente faria, ainda que em seu grau mais ínfimo) seria inútil para ele. Ele não pode arrebatar. Pode apenas cortejar.”

        Agora vamos ao seu tratamento das minhas ilustrações:

        Você diz que choca com a razão que pessoas sejam “presas” em uma punição eterna, por “falhas momentâneas”. Em primeiro lugar, não é como se Deus atirasse pessoas em uma prisão, mas são as próprias pessoas que escolhem ir para lá. Mais uma vez, vou explicar o que é o inferno: é um estado e um lugar de separação de eterna de Deus. Não é uma “tortura” ou algo do tipo, mas uma separação. Essa é definição correta. Para não atacar espantalhos, usemos a terminologia adequada.

        Se as pessoas sofrem no inferno, é porque o sofrimento é o resultado natural e a consequência lógica de estar afastado de Deus, não porque haja chamas literais queimando alguém (e, de fato, não há).

        Em segundo lugar, você parece pressupor uma teoria inadequada de justiça.

        Quando você diz que é injusto punir alguém eternamente por falhas momentâneas, você parece pressupor que a duração da punição deve ser proporcional à duração do pecado. Esse está longe de ser o caso. A punição deve ser sempre proporcional à gravidade do pecado, não à sua duração. Um assassinato, por exemplo, pode durar alguns segundos, mas vários sistemas de justiça o puniriam com a prisão perpétua ou pelo com muitos anos de prisão, dada a gravidade do delito. Não importa se o crime é momentâneo, mas sim sua gravidade.

        Em terceiro lugar, ninguém punido no inferno por meras falhas momentâneas, como uma mentira ou um furto. De certa forma todos esses pecados já foram pagos na cruz. Mas a pessoa é punida no inferno por rejeitar a Deus, não amá-lo e não se arrepender de seus pecados. Esse é um pecado de proporções infinitas.

        Por último, é verdade que ninguém consegue cometer infinitos pecados em uma vida finita, mas o que dizer do pós-vida? No inferno, essas pessoas continuam rejeitando e acumulando punição sobre si. Assim, pode-se dizer que o inferno se auto-perpetua.

        Uma ilustração interessante vem do poema Inferno, de Dante. É claro que esse poema não pode ser tomado literalmente, e acredito que o próprio Dante não quisesse isso, mas ele é extremamente útil para ilustrar certas verdades espirituais. Dante cuidadosamente escolheu cada tipo de sofrimento para ilustrar sua crença de que a punição para o pecado é o próprio pecado. Isto é, o pecado de cada pessoa molda sua alma de tal modo que ela cria sua própria agonia. Por exemplo, Satanás fica no fundo do inferno envolto em gelo até a altura do peito. O que mantém o gelo é o interminável bater de suas asas de morcego. O bater das asas exprime vontade dele: “Eu vou voar até as alturas do céu e ser igual a Deus do meu próprio modo”. Se ele pudesse ao menos ser mais humilde e parar de bater suas asas, o gelo derreteria e ele estaria livre. Mas ele nunca fará isso. Como bem dizia C.S. Lewis, “as portas do inferno estão trancadas por dentro”. Assim é o inferno.

        Você diz que o inferno é comparável a que o vilão foi sujeito no filme, mas o inferno é a escolha da própria pessoa que se separa de Deus. Ela vai para lá por sua própria vontade, enquanto o ciclo de reencarnações e a lei do progresso são uma imposição, uma compulsão à qual não está no poder do homem se opor (nas palavras do próprio Kardec). O Espiritismo pode até falar em livre arbítrio, mas é difícil entender esse livre arbítrio se Deus não deixa ao homem a escolha de permanecer em seus caminhos para sempre. Portanto, é o sistema espírita que é análogo a uma prisão, não o sistema cristão.
        Você diz que a ilustração do trem não aplica pelo fato de que “quem o guia somos nós mesmos”. Mas é difícil entender como você é o guia quando suas ações estão sujeitas ao controle de uma lei irresistível e você ainda pode ser reencarnado contra sua vontade (reencarnação compulsória).

        Se você insiste que a escolha de seguir o caminho proposto por Deus é nossa, deixe-me fazer uma pergunta a você: se eu for mau e escolher permanecer devotado ao mal, se eu escolher seguir definitivamente o caminho do mal e rejeitar o bem, Deus vai respeitar essa minha escolha ou ainda vai sempre me impor reencarnações, sofrimentos e uma lei irresistível para fazer com que eu me volte para ele? Se ele não vai me fazer nenhuma imposição, então é possível permanecer eternamente no mal; mas se ele ainda vai usar tais meios coercitivos para me fazer mudar de caminho, então é realmente análogo ao filme, no qual toda vez que Dormammu escolhia fazer o mal, o herói fazia com que ele tivesse que enfrentá-lo de novo, ao invés de respeitar sua escolha. É verdade que no filme o herói fez isso para salvar a terra, então foi justificável, mas não o é no caso de Deus.

        No caso do filme, a escolha do vilão destruiria o universo inteiro, mas no caso de Deus, a escola do homem só destrói a ele mesmo.

        Portanto, o livre arbítrio de que fala o espiritismo é meramente ilusório.

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